Pesquisas do ISP terão foco nas instituições policiais

ENTREVISTA/Ten. Cel. Mario Sergio Brito Duarte

cel_mariosergio3.jpgA troca, em fevereiro, de uma antropóloga por um policial militar de perfil operacional no comando do Instituto de Segurança Pública, o órgão de pesquisas da Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro, deixou apreensiva a comunidade acadêmica. A preocupação se agravou pelo atraso da divulgação dos dados criminais e da sua precariedade nos últimos meses.

Em carta aberta ao governador Sérgio Cabral e ao secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, pesquisadores da área de segurança pública do Rio de Janeiro expuseram sua preocupação com a continuidade dos projetos e a manutenção e o aperfeiçoamento da coleta e divulgação sistemática dos dados criminais. Na carta, eles pediram para serem convidados para uma reunião com a nova direção do Instituto de Segurança Pública. Foram atendidos.

Em 6 de março, dez pesquisadores encontraram-se com o secretário Beltrame e o atual diretor do ISP, tenente coronel Mario Sergio de Brito Duarte, e obtiveram deles respostas positivas: o compromisso de publicação mensal dos dados; a garantia de finalização dos projetos iniciados e o acesso aos microdados a partir de demandas específicas de projetos. Os gestores também se mostraram simpáticos à idéia de criação de um conselho para fazer a ponte entre a direção do ISP e a comunidade acadêmica.

Segundo o tenente coronel Robson Rodrigues da Silva, vice-presidente do ISP, o Instituto vai priorizar três temas – homicídios, roubo de veículos e crimes de rua, que são roubo a transeuntes, roubo a coletivo e roubo de celular. E os pesquisadores já podem enviar suas propostas de projetos. “Os que melhor se enquadrarem nas nossas prioridades serão mais rapidamente aproveitados, o que não exclui os outros, que apoiaremos dentro das nossas possibilidades”, contou.

No dia 19, o ISP convocou a imprensa para divulgar o balanço da criminalidade em 2007 em relação a 2006. Na ocasião, Beltrame defendeu o financiamento de pesquisas através de convênios com órgãos de fomento, como a Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), e com instituições de pesquisa, como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e a Fundação Getúlio Vargas (FGV), que está desenhando um projeto de modernização dos batalhões do Rio.

Na terceira entrevista da série "O que eles pensam", o Comunidade Segura ouviu o novo diretor-presidente, tenente coronel Mario Sergio de Brito Duarte. Profissional da área operacional, Mario Sergio já comandou o Batalhão de Operações Especiais (Bope), o Batalhão da Maré, a Academia de Polícia e estava na Superintendência de Planejamento Operacional quando foi chamado para dirigir o Instituto. Já o tenente coronel Robson, coordenador dos Conselhos Comunitários de Segurança na gestão anterior, é um símbolo da continuidade dos projetos do ISP.

Como foi a reunião com os pesquisadores?

Ten. Cel. Mario Sergio: Foi ótima, ótima. Que pena que os pesquisadores perderam a oportunidade de ter essa conversa comigo antes de fazer o texto e divulgar aquela carta. Tenho a impressão de que se soubessem que a reunião teria sido tão boa não teriam escrito. Foi uma precipitação da parte deles, mas isso já está completamente solucionado.

Como profissional da área operacional, como foi o seu início à frente do ISP?

Ten. Cel. Mario Sergio: Houve uma certa especulação até antes mesmo da minha de eu assumir o cargo de diretor presidente do ISP no sentido de que traríamos problemas não só para o campo de pesquisa mas como para a divulgação dos nossos números. Falou-se até em alguma maquiagem e sonegação de informações. Esta reunião que estamos fazendo é um exemplo claro do contrário, de que estamos querendo dar celeridade e transparência na exibição.

O senhor vai manter a mesma equipe?

Ten. Cel. Mario Sergio: Assumi o Instituto procurando manter as equipes, os grupos e os profissionais com a mesma motivação que tinham na gestão anterior, que marcou sua passagem como uma gestão importante, que fez muitos avanços, aos quais nós teremos que dar continuidade. Tanto que o vice-presidente e o chefe do núcleo de pesquisas já eram da equipe anterior. Não fizemos modificações que possam indicar uma direção no caminho que foi alardeado anteriormente.

Como será a política de pesquisa do ISP?

Ten. Cel. Mario Sergio: É claro que vamos dar continuidade às pesquisas. O que acontece é que queremos ter um espectro maior no campo das pesquisas. O ISP abriu excelentes janelas com o apoio das ciências sociais, mas queremos abrir também para outras ciências, que acreditamos que poderão trazer considerações importantes para a segurança pública como a epidemiologia, o serviço social, a geografia, com a cartografia, profissionais do direito, da administração. Queremos abrir novas janelas, mantendo aquelas que foram abertas, ampliar o campo de pesquisa e não reduzir.

Quais serão as prioridades na área de pesquisa?

Ten. Cel. Robson: A Coordenadoria de Pesquisas e Produtos vai priorizar três temas – homicídios, roubo de veículos e crimes de rua, que são roubo a transeuntes, roubo a coletivo e roubo de celular. Criamos carteiras em que analistas investigarão em maior profundidade esse tipo de delito, para verificar padrões e modos operandi. O ISP vai funcionar como suporte para as polícias operarem, com as pesquisas focadas nesses crimes.

Como ficam os projetos que já estavam iniciados?

Ten. Cel. Mario Sergio: Não existe nenhuma hipótese dessas pesquisas serem prejudicadas. Nosso objetivo é abrir o leque de considerações. Não vamos deixar de ter o olhar nas ciências sociais, nem deixar de ter interfaces com pesquisadores dessas áreas. O ISP não vai limitar ninguém, não vamos criar segregações, sectarismos. Queremos ampliar, e não segregar. Temos um número bom de projetos realizados por diversas instituições de ensino e pesquisa do Rio que foram iniciados na gestão anterior e que serão concluídos. São projetos desenvolvidos por pesquisadores sérios, competentes. Não haverá interrupção.

Pode dar exemplos desses projetos em andamento?

Ten. Cel. Mario Sergio: Temos um projeto que foi contemplado com recursos da União Européia sobre o sistema integrado de análise de dados, temos o observatório de análises criminais e a revisão dos manuais dos procedimentos policiais.

As novas pesquisas serão mais voltadas para a prática?

Ten. Cel. Mario Sergio: Toda pesquisa tem uma parte teórica, e muitas delas são de natureza teórica. Mas queremos sempre ter o olhar para as suas aplicações. Queremos pesquisas sim, mas com uma aplicação. Quando digo isso tenho que falar com muito cuidado porque posso passar uma falsa impressão de que as pesquisas feitas anteriormente deveriam ser guardadas em gavetas para uso apenas da curiosidade das pessoas. Não é isso. Acredito que todas as pesquisas feitas tinham o objetivo de aplicação. Mas, além dessas, agora vamos realizar outras que possam ter aplicações dentro das próprias instituições. As pesquisas não foram realizadas olhando para as instituições vendo as suas demandas, as suas necessidades.

Poderia dar um exemplo de uma pesquisa nessa linha?

Ten. Cel. Mario Sergio: Uma pesquisa que se requer há muitos anos é sobre as patologias que nossos policiais desenvolvem ao longo da carreira. Isso foi feito, mas pela Fundação Oswaldo Cruz. Então, queremos dar continuidade a coisas dessa natureza.

Já existem pesquisas encaminhadas?

Ten. Cel. Mario Sergio: Ainda não. Estamos agora formando um rol daqueles assuntos de interesse e depois vamos começar a preparar as idéias que vão gerar os projetos.

O que é o projeto com a FGV?

Ten. Cel. Robson: Estamos desenhando um projeto de modernização dos batalhões. Temos que pensar como acompanhar as rotinas para poder verificar os problemas e modernizar as ações policiais focadas com a sociedade democrática de direito.

Quais os assuntos de maior interesse?

Ten. Cel. Mario Sergio: Temos as instituições policiais como foco. A partir daí vamos ver os assuntos que serão tratados. Alguns delitos causam um prejuízo muito grande a partir da difusão do medo, como roubo de veículos. Temos carteiras para trabalhos que visam identificar, mapear e geo-referenciar esses delitos para que as corporações policiais tenham maior facilidade para fazer prevenção e repressão. Vamos trabalhar a questão do roubo, que está crescendo, por conseqüência de um investimento maior no crime com um emprego de inteligência maior, que são os crimes de quadrilha. Nossa tese é de que com um direcionamento muito grande para desarticular as quadrilhas, os crimes acabam pulverizados e aumenta o número de delitos de rua.

Os pesquisadores podem mandar projetos?

Ten. Cel. Robson: Sim. Os projetos que melhor se enquadrarem nas nossas prioridades serão mais rapidamente aproveitados, o que não exclui os outros, que apoiaremos dentro das nossas possibilidades. Pesquisas que sejam de interesse, mas que o ISP não tenha condições de fazer, serão promovidas, com a captação de recursos e a contratação de profissionais dentro de projetos. Precisamos de gestores e pessoas que façam pesquisa multidisciplinar envolvendo área tecnológica, gestão, saúde. Vamos abrir um edital.

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Comentários

Quero parabenizar a equipe

Quero parabenizar a equipe do Comunidade Segura pela realização dessa oportuna entrevista. Oportuna, por nos possibilitar contato com o que pensam os dirigentes atuais do Instituto de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro. Desejo aos mesmos sucesso em suas estratégias para lidar com as informações em Segurança Pública de forma produtiva ou, como diriam os entrevistados, aplicativa.
Interagindo com a opinião dos mesmos, acredito que não há pesquisas, em nenhuma parte do mundo, que não seja aplicada. Algumas produzem materiais, objetos ou entendimentos sobre o funcionamento de sistemas que podem ser prontamente utilizados para introduzir mudanças em um ambiente operacional, de produção de outros materiais, objetos ou serviços. Outras pesquisas, como as que realizamos nas Ciências Sociais, esmeram-se por buscar entendimentos sobre lógicas sociais que se gestam ou modificam em virtude das dinâmicas relações humanas. Tais entendimentos, muitas vezes, levam a reconfigurar os ambientes sobre os quais se pensam materiais ou objetos manipulados pelo conhecimento, repensando os sistemas onde se estabelecem as interações.
Acredito ser plausível pensar que as mudanças que se anunciam tenham a ver com percepções sobre essas modalidades de pesquisas em função de suas temporalidades. Há tempos de respostas distintos para cada tipo de pesquisa, o que pode sensibilizar positiva ou negativamente interesses que nem sempre se vinculam às necessidades de respostas em função do aprimoramente de serviços em prol dos processos interativos na sociedade mais ampla. Mas respostas que muitas vezes intrincam necessidades políticas de distintos segmentos superpostos às mais distintas esferas do poder público. E isso é particularmente sentido em instituições que, em nossa tradição, são segmentadas corporativamente, o que ampliam a complexidade sistêmica das mesmas e as pressões por respostas inteligíveis que mantenham em equilíbrio as perenes relações que se formam em torno das permanentes disputas em tais contextos.
Mas é importante saudar esse novo momento, pois inevitavelmente serão introduzidas mudanças que farão a área da Segurança Pública se desenvolver. E enquanto ela se desenvolve, nós observamos, ouvimos e escrevemos. Ou seja, fazemos nosso trabalho.
Um abraço a todos.

Lenin Pires
Núcleo Fluminense de Estudos e Pesquisas
NUFEP/UFF
leninpires@yahoo.com.br
skype: leninpires

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