Mulheres no comando da polícia na Nicarágua

ENTREVISTA / Elizabeth Rodríguez Obando

POLICIA-NICARAGUA-CAPA.jpgUma instituição onde a diretora geral e a diretora da academia que prepara os aspirantes que vão integrar seu efetivo são mulheres. Assim é a Polícia Nacional da Nicarágua, um lugar onde as mulheres chegaram a ocupar cargos de alto comando, ao contrário de muitas de suas similares na América Latina.

"A Polícia Nacional assumiu a eqüidade de gênero não só por ser um direito humano, mas porque a entende como estratégia para a construção de uma sociedade mais justa e desenvolvida", afirma Elizabeth Rodríguez Obando, diretora da Academia de Polícia da Nicarágua.

Em entrevista ao portal Comunidade Segura, Rodríguez, que também faz parte da Rede de Policiais e Sociedade Civil da América Latina, explica como a igualdade de oportunidades para mulheres e homens é a chave para o processo de desenvolvimento e modernização da instituição no seu país: “Se quisremos modificar a instituição por dentro, também temos que levar em conta como a sociedade está tratando o tema”.

Como é o enfoque de gênero na Polícia da Nicarágua?

O enfoque de gênero está orientado para potencializar as capacidades dos recursos humanos, garantindo a plena participação em igualdade de condições e oportunidades entre homens e mulheres no âmbito interno e, ao mesmo tempo, continuar transformando condutas, atitudes e práticas no trabalho policial com relação aos serviços que se presta à sociedade.

Como se explica que mulheres ocupem dois cargos tão importantes na Nicarágua?

A participação das mulheres no processo revolucionário que culminou com a guerra em 1979 e na derrubada da ditadura foi muito importante. Depois da ruptura do sistema ditatorial, as mulheres passaram a ocupar altos cargos no governo revolucionário e temos a primeira chefe de Polícia Nacional em todo o mundo.

Como foi o processo para incluir o enfoque de gênero na polícia?

Foi um proceso gradual, lento, mas seguro, que pretendeu promover trocas em nossa instituição, nas políticas, planos e estratégias a favor da eqüidade de gênero. Nossas motivações principais residem na fundação da instituição em 1979 e no convencimento da justiça do enfoque de gênero e o reconhecimento dos benefícios trazidos com a modernização da nossa instituição.

Quais foram os passos dados para isso?

Entre 1990 e 1993, as mulheres policiais passaram a ser promotoras de iniciativas e propuseram à chefia nacional tratar o problema da violência intrafamiliar de forma apropiada. Então foi criada a primeira Delegacia da Mulher e da Infância para atender a esta demanda cidadã. Já em 1996, a polícia assumiu o enfoque de gênero com uma perspectiva de desenvolvimento e mudança de consciência oficialmente e passou a fazer esforços para potencializar o ingresso de mulheres na Polícia Nacional.

Como isto ocorreu e qual é a situação atual?

Se estableceram mudanças nos procedimentos e uma meta de recrutamento de pessoal feminino para ingresso na Academia de Polícia de 30%. Em 2004 obtivemos 33%, em 2005, 31%, e em 2006, 26%. Atualmente, no que diz respeito ao Curso Técnico Policial, que tem duração de un ano, o ingresso de mulheres se mantêm em 25%.

Na sua opinião, quais foram as estratégias-chave para o êxito desta iniciativa?

A liderança da chefia nacional que tomou para si a responsabilidade desta ação, assim como o envolvimento das principais autoridades das áreas relacionadas. E, claro, a liderança e o compromisso das mulheres policiais.

Quais foram as lições aprendidas?

A importância em contar com e manter a vontade política no primeiro nível hierárquico da instituição e a eficácia de trabalhar com equipes interdisciplinares, já que é imprescindível trabalhar a parte educativa que sensibiliza o ser humano para que sejamos capazes de mudar as coisas e de melhorá-las. Estas ações não devem ser realizadas apenas em um período ou para um estudo determinado, devem ser processos sustentáveis. Se quisermos influenciar as mudanças no interior da instituição, também tenemos que levar em conta como nossa sociedade está tratando o tema.

Na sua opinião, é difícil ser mulher e policíal ao mesmo tempo?

Sim, é difícil porque as mulheres têm uma série de papéis na sociedade, em nossas vidas. Somos mães, esposas, filhas, policiais, e as coisas ficam confusas. No entanto, é possível ser mulher e ser policial. É uma vantagem para as instituições encarregadas da ordem pública e da segurança, já que nós temos a qualificação, a ética, o profissionalismo, a perseverança, a transparência, o humanismo que  historicamente temos demonstrado para construir sociedades melhores.  

Saiba mais:

Rede de Policiais e Sociedade Civil da América Latina

Em outros sites:

Website oficial da Polícia Nacional da Nicarágua

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