Jovens que matam e jovens que morrem na Argentina
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Sem os altíssimos níveis de violência armada registrados em outros países da região, os argentinos se preocupam com a relação mortal que existe entre os jovens e as armas.
O Mapa da Violência de 2006, um estudo realizado pela Organização dos Estados Ibero-americanos (composta pela América Latina, Portugal e Espanha), indicou que a Argentina ocupa o 7º lugar no índice de mortos por armas de fogo (7,3 em cada mil) e o 14° posto da lista quando se avalia a quantidade de jovens que morrem pelas balas 1.
No Registro Nacional de Armas (Renar) foram registradas aproximadamente 1.124.000 armas de fogo legalmente registradas, das quais 990 mil se encontram nas mãos de quase 625 mil usuários individuais. A quantidade de armas ilegais é desconhecida mas, legais ou ilegais, elas servem para matar 2.
“Para muitos jovens é mais fácil ter acesso às armas de fogo do que aos livros”, disse o ex-ministro de Educação, Daniel Filmus, um forte defensor das políticas de desarmamento impulsionadas pelas organizações sociais. Mas os jovens também são as principais vítimas da proliferação e da utilização das armas.3
Soma-se a essa opinião a cifra proporcionada por Juan Carr, referente da Rede Solidária, que integrou a lista de candidatos ao Prêmio Nobel da Paz em 2007: "um milhão e meio de crianças argentinas vivem em lares nos quais existem armas e a metade delas está carregada permanentemente”.4
Além da pouca idade das vítimas, relatórios governamentais acrescentam como agravante o fato de que são pobres e vivem em áreas urbanas. Assim indica um relatório do Conselho de Direitos de Meninas, Meninos e Adolescentes da Cidade de Buenos Aires, difundido durante a jornada "Direitos da Infância e Violência Armada", organizada pela Direção Geral de Políticas de Segurança e Prevenção do Delito da Cidade e pela organização internacional Save the Children, com o apoio da Rede Argentina para o Desarmamento e realizada no último mês de outubro.
Os resultados de um trabalho de acompanhamento de jovens entre 13 e 17 anos que cometeram uma contravenção e que foram encontrados portando algum tipo de arma na via pública indicam que 98% dos 49 adolescentes encaminhados ao programa durante 2005 eram homens. “Esse – indica a pesquisa - foi um dado significativo para os especialistas do Conselho para abordar o problema das armas como uma questão de gênero, que influi fortemente na projeção da identidade dos jovens”. 5
Nas conclusões da pesquisa, a coordenadora técnica da tarefa realizada em Buenos Aires, Cristina Erbaro, disse que “em muitos casos, especialmente entre os adolescentes, as armas são utilizadas como um elemento de intimidação, reforçador da masculinidade, capaz de resolver os seus conflitos interpessoais, e não só por cometer atos ilícitos".
Culpados e vítimas
A juventude na Argentina é culpada pelos atos violentos e chega aos meios de comunicação de massa. Isto acontece sem julgamento prévio, diante da instantaneidade das câmeras de televisão que, quebrando todas as normas éticas, divulgam a voz das vítimas de golpes criminosos violentos minutos depois de terem sofrido a perda de um ser amado, em meio do lógico choque do momento.
O assassinato de três estudantes ocorrido em 2004, em uma escola da Cidade de Carmen de Patagones, perpetrado por um companheiro de estudos, pôs sobre a mesa o papel dos jovens e das armas e permitiu abrir um canal de debate que continua aberto socialmente, mas com objetivos diversos.
Existem os que responsabilizaram o jovem pelo ocorrido e os que defendem que a arma utilizada pertencia a seu pai, um homem em atividade nas forças de segurança. Nos outros setores, destaca-se que o fato não poderia se repetir, já que quem disparou tinha problemas de saúde mental e as condições do lugar em que ocorreram rompia com os estereótipos sociais, já que era uma escola de uma área próspera, com alunos estudiosos e sem antecedentes de condutas violentas.
Mas o mais transcendente do debate surgido foi dito pelos próprios jovens estudantes das escolas secundárias de todo o país, reunidos no Congresso de Jovens pela Paz e pela Solidariedade. É uma instância de participação estudantil surgida em função do conhecido "Massacre de Patagones” e que é organizado anualmente pelo Ministério de Educação argentino, a pedido de duas organizações que logo fundaram - em parceria com outras - a Rede Argentina para o Desarmamento, como a Rede Solidária e a Associação Espacios.
Jovens de 18 a 20 anos oriundos de todas as províncias enviaram cartas aos legisladores pedindo o seu apoio a um tratado global sobre tráfico de armas, reclamaram políticas de controle do porte doméstico de armas de fogo e munições, e discutiram novas formas de convivência escolar, propuseram novas ferramentas de resolução de conflitos, realizaram uma forte campanha contra a venda de brinquedos bélicos e, contundentemente, chamaram a atenção dos adultos por sua responsabilidade na construção da realidade.
Ajudar os jovens antes que se tornem maus
Em qualquer lugar do mundo, mas fundamentalmente em nossa oprimida América Latina, quando um adulto vê uma criança em condições de extrema pobreza, pedindo caridade, este lhe ajuda como produto da lástima. Essa mesma criança, colocada no mesmo lugar anos depois, durante a sua adolescência, gera pânico. A reação do “mundo dos adultos” é, então, escondê-lo, trancá-lo.
Deve-se considerar que um problema não superado na Argentina é o denominado "gatilho fácil". Quase todas as vítimas jovens de balas policiais encaixam-se no perfil antes indicado. A coordenadora Contra a Repressão Policial e Institucional (Correpi) denunciou que desde 1996 foram registrados 1.684 casos de assassinatos cometidos pelas forças policiais, 6"a maioria de jovens”.
Existe uma tarefa prévia a ser feita então, antes que esse jovem mate ou morra. Cortar a circulação de armas por um lado, o que é uma tarefa dos adultos e fundamentalmente das agências do Estado e, por outra parte, trabalhar com os jovens antes que estes encontrem uma arma para se defender ou para atacar, para mostrar ao mundo que existem ou para, simplesmente, sobreviver em um contexto complexo de exclusão social.
Adolfo Pérez Esquivel, argentino premiado em 1980 com o Nobel da Paz, apresentou há um ano um documento que alertava que “devemos cuidar dos jovens, não matá-los”. Nele Esquivel denunciou que “mais de 80% dos menores internos não o são por delinqüência, mas sim por pobreza, por exclusão social, por serem vítimas de uma sociedade injusta. As prisões são depósitos humanos, não centros de capacitação e reabilitação. A maioria dos presos são jovens”.
Para isso, um relatório de avaliação dos adolescentes internados no Sistema de Responsabilidade Penal Juvenil de Mendoza, recentemente apresentado perante o Conselho Nacional da Infância, Adolescência e Família, dá um diagnóstico adequado para poder prevenir a chegada dos jovens ao delito armado.
Concluiu que 97% de um total de 150 adolescentes entre 16 e 20 anos, que estão ali privados de liberdade, pelo menos um ano antes de serem “capturados” pela Justiça tinham sido privados de outros direitos, como, por exemplo, o de freqüentar a escola. 7
Fora da escola, fora de seus lares com famílias atingidas por diversas crises, principalmente econômicas, e com armas à mão, encontraram um efêmero mundo de auto-satisfação que é cortado pela morte ou a prisão.
Esse único índice é suficiente para entender que nós, os adultos, falhamos, mas colocamos a culpa desses erros nos jovens, uma vez mais.
2 Kosovsky, Dario. El ciudadano sheriff. Capital intelectual. Buenos Aires, 2006
3 Do discurso do ministro Filmus no Congresso de Jovens pela Paz e pela Solidariedade, Buenos Aires, 2006
4 Página 12 (http://www.pagina12.com.ar/diario/sociedad/3-44913-2004-12-16.html)
5 http://www.fundacionlebensohn.org.ar/ver/index.php?p=165
6 http://nexos.unq.edu.ar/index2.php?option=com_content&do_pdf=1&id=379
7 Diario Uno (http://www.diariouno.net.ar/2007/05/04/nota146232.html)








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