ONG abre a roda da capoeira na Jamaica

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A ONG Capoeira Alafia levou para as populações das comunidades excluídas socialmente de Kingston, na Jamaica, a luta trazida pelo Brasil pelos escravos africanos. Ensinando cerca de 60 crianças e jovens entre cinco e 25 anos, os seis instrutores de capoeira e um voluntário vêem a luta - que mais parece uma dança - como uma ferramenta para a prevenção da violência. Os movimentos da capoeira trabalham o auto-controle, ampliam os círculos sociais e ajudam a restabelecer o orgulho das raízes negras e manter as amizades.

"Desde que estive na Jamaica pela primeira vez em 2004, meu objetivo tem sido ensinar a capoeira como uma forma de treinamento da não violência e de promover a paz e a unidade. A capoeira para mim sempre foi a celebração da vida e da liberdade e me confrontar com a violência diária da Jamaica naturalmente me faz querer ajudar a fazer a diferença", afirma Dennis Eckart, um dos três diretores da Capoeira Alafia. Ele divide a direção da organização com os brasileiros Cristiane Garcia Pereira e Ângelo dos Anjos Oliveira.

Alafia é uma palavra no dialeto yorubá com raízes árabes que significa "tudo que o homem pode desejar: uma vida calma e harmoniosa". "O yorubá é uma das muitas línguas faladas pelos escravos africanos trazidos para o Brasil e para a Jamaica", conta Eckart, acrescentando que trabalhar na Jamaica com uma luta inventada por escravos africanos que combatiam a servidão e a opressão tem com certeza um grande significado.

"Existem muitos paralelos entre as culturas, histórias e sociedades jamaicana e brasileira, ambas baseadas no comércio escravocrata durante a era colonial." Ao se fazer uma imerção nas tradições relacionadas a esse passado comum, a equipe da Alafia acredita que têm em mãos uma ferramenta para conter os efeitos devastadores da exclusão social, do racismo e da violência presentes tanto dentro das famílias como nas gangues de jovens.

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E Eckhart (foto) vai ainda mais longe: "O reggae, por exemplo, foi uma forma de resistência contra a opressão, ideologicamente muito semelhante à capoeira, e está enraizado na cultura da Jamaica. O movimento Jamaican Maroons também lembra os quilombos brasileiros e Zumbi dos Palmares, termos com os quais os capoeiristas estão fortemente familiarizados", explica.

Guetos

Não existe nenhum pré-requisito para participar da Alafia. Crianças e jovens geralmente começam a freqüentar a organização depois de ouvir falar do movimento ou depois de assistir a uma apresentação na comunidade. "Nós conseguimos criar uma situação onde estudantes de diferentes comunidades interagem uns com os outros de uma forma pacífica, prazerosa e saudável - jogando capoeira. Mas isso só é feito depois de um período de treino nas áreas onde moram", diz Eckhart.

A violência a que ele se refere se manifesta de várias formas. Uma delas são os disparos de armas de fogo que acontecem no meio da noite nas comunidades divididas em áreas chamadas de garrisons (guetos), dominadas por gangues controladas por dons (chefes) e com viés político.

Nessas áreas ocorrem mortes por retaliação e existem demarcações territoriais que não podem ser ultrapassadas. "Tradicionalmente a violência de gangues na Jamaica foi motivada por disputas políticas e baseada no fato de que cada garrison ou gueto está associado a um dos dois partidos políticos existentes no país, o PNP e o PLP", explica Eckhart.

A tentação das armas

As raízes da capoeira africana também demarcam os limites que dividem a comunidade entre negros e brancos. Muitos adultos nunca saíram da comunidade onde moram. A pressão é tão forte, segundo o diretor da Alafia, que muitos tentam descolorir a pele usando produtos tóxicos na tentativa de clareá-la.

cristiane_sm.jpg"A influência da cultura norte-americana é muito forte e o sonho de muitos jamaicanos é ir para os Estados Unidos, Canadá ou Inglaterra. A capoeira pode ser uma forma de mostrar a essas pessoas como a cultura africana pode ser bela, forte e poderosa e levá-los a sentir orgulho e ter consciência da riqueza e da diversidade dessa cultura. A facilidade com que eles aprendem a arte da capoeira e entendem o seu conceito é impressionante!", afirma Christina Garcia Pereira (foto), que nasceu no Brasil e foi para a Jamaica em 2006.

A capoeira dá aos estudantes algo que eles podem controlar independente da sua origem ou da educação formal que receberam. Eles podem competir com estudantes de outros níveis e adoram quando viajam, quando participam de apresentações, onde podem demonstrar suas habilidades e causar boa impressão", completa Eckhart.

Faith_sm.jpgPara Faith Saint Catherine (foto), psicóloga da organização, e que se especializou no trabalho com meninas e mulheres, o problema da violência é mais profundo.

"Exite um nível alto de violência na comunidade e o que percebo da minha interação com os clientes é que os padrões tradicionais de cuidados com as crianças são baseados em palmadas e humilhações. Existe muito abuso e as crianças são ensinadas a resolver as questões com métodos agressivos", conta Faith. 

É um círculo vicioso. Segundo ela, os xingamentos e humilhações resultam em uma baixa auto-estima e na inabilidade de manter relacionamentos. Essas relações pobres levam, por sua vez, à raiva, que leva a mais violência. "Apesar de tentarmos lidar com os problemas com uma visão holística", explica.

kids_drawing_sem_legenda.jpgEssa violência fica evidente nos desenhos feitos por crianças e jovens no projeto EXpressions, onde expressam suas experiências relacionadas à violência e seus maiores sonhos através de desenhos. Um estudante mostrou em uma de suas ilustrações uma ocasião em que policiais bebiam cerveja e fumavam próximo ao corpo de um cidadão de uma comunidade em News Haven, em Kingston.

Mais auto-controle, menos raiva

No fim das contas, de acordo com Eckhart, "além de manter os jovens ocupados e longe das ruas, a capoeira os coloca em contato com um grupo que os encoraja a ter um estilo de vida não violento. O mais importante é que o treinamento tem enfoque no auto-controle", explica. "Os estudantes têm que aprender a se controlar fisicamente para que não machuquem os outros na roda. Essa experiência os ensina como controlar emoções como a raiva e os torna mais calmos e fortes à medida que conquistam esse auto-controle", completa.

Como resultado, afirma ele, os estudantes contam que se sentem aliviados de sentimentos como a raiva simplesmente por participar das aulas. Eles também dizem que sentem menos medo de andar nas ruas ou ir para a escola pois aprendem a se defender.

Fotos de divulgação

Saiba mais:

http://www.capoeira-alafia.org/

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