Haiti na cadência do Samba

*colaborou Aline Gatto Boueri

samba_boukman_peq.jpgNascido Jean Baptiste Jean Philippe, num bairro de elite da capital Porto Príncipe, Samba Boukman – o sobrenome é homenagem ao primeiro escravo a se revoltar contra a dominação francesa no país - escolheu seu nome e seu destino. Órfão de pai aos 13 anos, enfrentou dificuldades para terminar os estudos e se tornou um militante político influente. Tanto quanto o gorro estilo rastafári, a Constituição haitiana é parte da indumentária de Samba, que foi escolhido como porta-voz de todas as associações de base comunitária no maior departamento do país. “Eles achavam que eu falava bem, que a minha linguagem não era violenta”, afirma.

Samba começou a freqüentar Bel Air, favela da capital Porto Príncipe, em 1995. Partidário do movimento Lavalas, que levou o ex-presidente Jean-Bertrand Aristide ao poder e com o qual os setores populares têm forte identificação, o militante confirma a existência de um setor armado dentro do partido, mas justifica seu surgimento como resposta a ofensivas violentas de seus opositores.

Ainda que compreenda as razões de o Lavalas ter se armado, o atual comissário nacional de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração nega sua participação em confrontos violentos. “Eu representava a única fonte de renda para a minha mãe. Em nome dela precisava proteger minha vida”, explica.

Samba já foi preso pela Missão de Estabilização da ONU no Haiti (Minustah), mas de interrogado se transformou em parceiro. É protagonista de uma ação histórica de mediação de conflitos, na qual membros de grupos violentos assinaram um pacto de paz. “A condição é violência zero”, garante.

Você poderia falar um pouco sobre sua vida?

Fiquei órfão de pai aos 13 anos. Minha mãe fez um grande esforço para que eu e meus três irmãos freqüentássemos a escola. Apesar de todas as dificuldades, do lar sem um pai, consegui concluir a escola aos 22 anos, na época do embargo, quando Aristide estava no exílio e o país estava sob regime militar. O embargo fez com que o preço da gasolina subisse a tal ponto que era preciso andar quilômetros a pé porque não tinha dinheiro para pagar passagem. Comecei a estudar no Instituto Nacional de Administração, mas tive que deixar em seguida por problemas econômicos. Em 1997, escolhi recomeçar meus estudos, desta vez na Faculdade de Direito e Ciências Econômicas de Porto Príncipe. As pessoas pobres no meu país não têm direito à justiça. Achava que como advogado poderia ajudar a classe carente, mas me tornei um jovem militante. Assim como o advogado doutor Lafontant Joseph, que defendia a causa dos pobres e foi assassinado por isso, queria ajudar os pobres através da justiça.

Quando você se tornou militante?

Comecei muito cedo a militância política porque desde pequeno acompanhava minha mãe em reuniões de sindicato que ela freqüentava nos anos 1980. Ela não falava francês e eu traduzia os documentos para ela. Quando ela ficou doente, quis me tornar advogado para reivindicar os direitos dos trabalhadores. Nos anos 1990, recebi convites dos habitantes de Bel Air para me unir às associações políticas que reivindicavam a volta do Presidente Aristide, exilado nos EUA, mas eu nunca me interessei porque escutava falar de Bel Air como um lugar perigoso. Mais tarde, em 1995, decidi participar da campanha de René Préval (atual presidente do Haiti) e foi assim que comecei a freqüentar o bairro.

Quais eram os 'perigos' de Bel Air?

Depois de golpe de Estado em 1991, aconteceram muitos massacres em Bel Air. Os militares mataram muitos jovens. Muitos desapareceram por causa da perseguição política. Nessa época a mobilização para o retorno do presidente Aristide deu origem ao movimento.

Você tinha medo?

Eu tinha muito medo. Nessa época, eu militava na clandestinidade. Depois da eleição de Préval, perdi meu trabalho e me tornei compositor. Criei um grupo chamado I and I band. Tivemos mais um período de tensão política na qual um setor – que, aliás, estava em seu direito – começou a se manifestar contra Aristide durante seu segundo mandato, em 2000. Infelizmente, esse setor escolheu o caminho da violência para lutar contra o setor Lavalas, do qual eu fazia parte.

Qual era sua opinião sobre o governo de Aristide na época?

Bom, na época, a oposição qualificava o poder de Aristide como um poder uniforme no qual todo o governo era Lavalas. Não havia nenhuma outra tendência. Eles queriam um governo mais de coalizão, mas na época 100% da população tinha votado pelo movimento Lavalas. De qualquer forma, a oposição podia ter encontrado uma forma pacífica de se manifestar em vez de destruir as delegacias de polícia e matar os militantes. Isso deu origem a uma facção Lavalas armada.

Como os militantes Lavalas tiveram acesso às armas?

Não sei. Não eram só os militantes Lavalas que estavam baseados em Cité Soleil ou Bel Air. Tinha outras pessoas que também lutavam contra os Lavalas. Tínhamos infiltrações políticas.

Como é que você explica essas infiltrações?

Muitos em Cité Soleil e Bel Air tinham armas porque trabalhavam como segurança de empresas privadas. Esse pessoal era, a princípio, de tendência anti-Lavalas. Mas depois os próprios Lavalas começaram a pegar esses bicos para conseguir uma grana e, ao mesmo tempo, utilizavam essas armas para combater a oposição armada. Eram o que chamamos de agentes duplos. Dá pra entender o problema?

Qual era a dinâmica do combate?

A oposição começava se manifestando pacificamente. Mas havia uma ala dura dos ex-militares armados que fazia parte dessa oposição. Aí entram esses agentes duplos, que lutavam contra essa linha mais dura com as mesmas armas que lhes haviam sido dadas para que dessem segurança às empresas privadas. Isso causava um afrontamento violento.

Qual era sua posição? Como era a sua vida?

Eu era Lavalas. Freqüentava Bel Air, estudava na Escola Nacional de Artes. Apaixonei-me por uma moradora de Bel Air e com ela tive dois filhos. Fazia parte também da Organização pela Defesa dos Direitos dos Rasta Man (OPDDR). Na época as pessoas que queriam deixar crescer o cabelo Rasta não eram respeitadas. Eu participava de algumas manifestações, mas evitava situações perigosas. Eu representava a única fonte de renda para a minha mãe. Em nome dela precisava proteger minha vida.

Você não participou da luta armada?

Nunca. Mas com o início das atividades da oposição eu fui para Bel Air para lutar contra um golpe que estava sendo preparado por um movimento de jovens estudantes que ajudaram a destituir o Presidente Aristide em 2004. Muita gente morria, havia muitos enfrentamentos entre os grupos. Aristide foi obrigado a deixar o país à força.

As Forcas Armadas tinham sido desativadas por Aristide. E os antigos militares?

Os antigos militares (membros da Swat)  vinham vestidos de preto e matavam muita gente em Bel Air. Queimavam casas. Às vezes tinham até o apoio dos soldados da ONU que davam cobertura para que esse pessoal entrasse nos bairros para matar.

Você acredita que os soldados eram conscientes disso?

A gente sentiu na pele. Havia policiais chineses, soldados brasileiros, que davam cobertura aos responsáveis dessas operações. Mas depois, o comando do batalhão brasileiro se deu conta de que quando eles se posicionavam nas ruas principais, os policiais vestidos de preto entravam nas ruelas e matavam gente inocente. Então começaram a acompanhá-los dentro das ruelas e só assim a população teve alívio. 

Quando a imprensa vinha, o povo denunciava essas violações. Foi então que fui escolhido como porta-voz de todas as pequenas associações do Departamento do Oeste (o maior do Haiti, onde fica Porto Príncipe). Eles achavam que eu falava bem, que a minha linguagem não era violenta. Mas eu não queria falar, tinha medo que escutassem minha voz e que fossem até Pétion Ville matar a minha mãe. Mas com a pressão do povo, eu decidi aceitar. Foi então que entrei em contato com os membros da Fundação de Aristide e passei a representar também o Lavalas.

Você não estava de acordo com essa facção violenta, mas aceitou representá-los como porta-voz?

Foram as associações de base que me escolheram como porta-voz, mas elas nunca estiveram armadas. Mas não se esqueça... 750 policiais e seguranças foram despedidos de empregos públicos com todas essas armas nas mãos. Eles foram mandados embora porque eram Lavalas. Não podiam simplesmente cruzar os braços e esperar ser assassinados. Eles tinham armas e usavam essas armas.

Qual era sua função?

Minha função era administrar os interesses da Organização e tomar decisões firmes em relação às organizações de base. A comunidade internacional só nos escutaria se fizéssemos manifestações pacíficas. Mas a nossa primeira manifestação em Bel Air, no dia 10 de novembro de 2004, terminou mal. Os homens de preto atiraram na gente. Eu escapei por pouco, mas vi gente morrer na minha frente, meninas e meninos, todos jovens.

E os soldados da ONU?

Depois de muitas manifestações conseguimos encontrar um espaço de dialogo com eles. Negociamos com o comando dos militares e com o setor civil da Minustah com a intenção de convencê-los de que não éramos todos iguais. A Minustah propôs então o programa de Desmobilização, Desarmamento e Reintegração (DDR). O desarmamento foi benéfico para os militantes Lavalas. As atividades sociais no bairro eram um estímulo para que o jovem que tinha uma arma entrasse no processo. O setor civil da ONU e a Organização Zakat Zanfan (organização que trabalha com meninos de rua no Haiti) promoviam atividades sociais e de sensibilização para ajudar as crianças de rua que estavam sob a mira da polícia porque estavam armados e eram Lavalas.

Mas no DDR não há nenhuma porta aberta para as gangues e o dia que isso acontecer, peço minha demissão. O DDR foi implementado para os jovens militantes que usam armas para se defender da repressão. Não para responsáveis de seqüestros ou assassinatos. Cerca de 20 crianças já se juntaram ao programa voluntariamente e devolveram suas armas, apesar das dificuldades. Muitos beneficiaram do programa freqüentando escolas, cursos de mecânica, carpintaria, informática.

Bel Air está completamente desarmado?

Nesse preciso momento não temos armas em Bel Air. Todos estão vigilantes para manter o bairro em paz. E isso permitiu inclusive que a Minustah abrisse uma zona eleitoral no bairro.
 

É verdade que você foi preso pela Minustah?

Sim, em fevereiro de 2005. Na época, a Minustah achava que todos os habitantes do bairro eram bandidos. Nesse dia levei muito tempo para reagir e fui preso. Eles me levaram para a Universidade de Tabarre e fizeram uma investigação com base no meu nome de família que é Jean Baptiste Jean Philippe. Não acharam nada, é claro. Mas quando anunciaram na rádio que o Samba Boukman tinha sido preso, a polícia reagiu e pediu a minha guarda. Os militares brasileiros negaram, dizendo que era tarde demais, e me soltaram no dia seguinte em Bel Air.

Você então decidiu continuar vivendo em Bel Air?

Eu nunca deixei o bairro. Tinha minha mulher e filhos morando lá e não queria abandonar o povo de Bel Air, que tinha depositado toda confiança em mim. Antes mesmo das eleições, a gente tinha conseguido, com a ajuda da Minustah, pacificar a zona. As Samba Boukmanoperações violentas da polícia não eram necessárias e graças ao diálogo, encontramos a solução. Depois das eleições, o governo legítimo formou a Comissão Nacional de Desarmamento, a CNDDR, e eu fui escolhido para representar a Presidência.

Os membros de gangue que não quiseram devolver as armas foram obrigados a viver fora de Bel Air, em bairros onde eram tolerados. Os que não deixaram o bairro, foram vitimas da população. Outros devolveram suas armas à polícia. Com a paz instalada em Bel Air, a Minustah pôde fazer duas grandes coletas de lixo e  tivemos a chance de trabalhar com um grande parceiro – o Viva Rio, que implementou projetos de ajuda em Fort Touron, Delmas 2 e Solino.

Você acha que o Pacto pela Paz, assinado no mês de maio entre os chefes de gangues e a CNDDR, vai ser mantido?

O Pacto pela Paz foi uma conseqüência de encontros do comitê de gestão implementado pelo Viva Rio junto à CNDDR e à comunidade. Ele foi assinado justamente pelos elementos de conflito, chefes de facções que lutavam entre si nas quatro zonas do bairro (Solino, Delmas, Bel Air e Fort Touron). Não existe mandato contra essas pessoas, mas elas têm o apoio da vizinhança mais próxima. Fomos obrigados a passar por elas para administrar o conflito. E a condição é violência zero. Com violência não tem bolsas de estudos. Nosso maior problema é a educação. Agora, se tiver violência, a população vai se revoltar contra os que impedem suas crianças de estudar e pode até cometer atos violentos que não são bons para a imagem do nosso sistema judicial. O pacto vai trazer muitos frutos e poderá até ser reproduzido em outros bairros.

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