Pesquisadores e ativistas: uni-vos
O mundo do conhecimento, "puro" e aplicado, está dividido em compartimentos quase estanques. A separação existe em todos os países, mas há alguns nos que a distância é grande. O Brasil é um deles.
Nas Ciências Sociais a distância pode ser gigantesca. Do lado acadêmico, há um grupo considerável que não pesquisa que está muito preocupado com questões que se alojam no bojo da Filosofia Social e da Filosofia Política. Esse grupo se sobrepõe parcialmente com outro, que trabalha com grandes teorias, abstratas, algumas muitas antigas, sem fazer um esforço para acompanhar a ampla literatura, empírica e recente, sobre o tema que seus autores prediletos trabalharam (como suicídio, homicídio, crime, violência etc.). É uma tradição que, embora mantida por pessoas formadas majoritariamente no país, não o pesquisa ou o pesquisa pouco. Faltam-lhe os instrumentos. Às vezes, estão junto com os ativistas (escolho usar esse nome, que julgo muito positivo) em manifestações simbólicas como marchas, desfiles, paradas, missas, mas seu cotidiano não inclui meter a mão na massa.
Esse grupo exerce considerável influência em muitos departamentos e valora o conhecimento abstrato, a elaboração em cima de teorias conhecidas, tradicionais, que freqüentemente são teorias de "alguém". Exige, para conceder respeito acadêmico, esse conhecimento, que considera sofisticado, e que eu considero inútil ou quase inútil. No meu olhar, agrega pouco ao conhecimento dos problemas do Brasil. Não obstante, na maioria dos departamentos é esse grupo que dita as normas. Para eles a atividade de pesquisa empírica é menos nobre e os pesquisadores apenas uma presença incômoda, porque lhes cobra pesquisas, mas necessária, porque sem eles as verbas escasseiam. Nesse mundo há respeito político pelos ativistas, mas não há respeito acadêmico por eles.
Alguns ativistas estão ou passaram pelo mundo acadêmico, mas, por virtude ou por fortuna, se capacitaram de que citações eruditas não contribuíam para minorar os males sociais nem para reduzir o crime e a violência. Essa compreensão os levou, como pesquisadores, à necessidade de realizar pesquisas para elaborar medidas e políticas públicas que funcionassem. O contato com populações pobres e o contato com populações encarceradas sobre-determinou o olhar sobre muitos problemas. É um olhar que almeja cessar as constantes violações dos direitos humanos, as violências contra detidos e presos. Esse olhar não impede que analisem objetivamente os dados a que tem acesso.
Alguns chegaram ao ativismo depois de ampla formação e experiência acadêmicas. Talvez os exemplos mais notáveis sejam Luiz Eduardo Soares e Rubem César Fernandes, que respeito como acadêmicos, como ativistas e como policy-makers, tendo, também, a ousadia de considerá-los amigos pessoais. Temos, claro, como todos os pesquisadores, discordâncias.
Porém, há outro grupo de ativistas jovens, que entraram cedo para o ativismo, em parte sacrificando suas carreiras acadêmicas. Afinal, trabalho, ativismo, estudo, família e "a vida" competem por um tempo só. Talvez possa vir a existir uma carreira de pessoas que são ativistas; creio que está se esboçando.
Participam, e muito, de pesquisa, mas como os loci de seus trabalhos se encontram fora das universidades, devem batalhar diariamente pela sobrevivência da instituição, usualmente uma ONG. É minha intenção e meu projeto reaproximar esse grupo de pessoas, muitas das quais talentosas, do mundo acadêmico, particularmente dos seus pesquisadores.
Por quê?
Vejo vários benefícios:
· lembrar nosso mundo dos doutores de que estão no Brasil, país ainda subdesenvolvido, repleto de problemas, que precisa ser pesquisado e compreendido em seus próprios termos. Ninguém melhor do que alguém que mete a mão na massa para se dar conta de que não existe conhecimento de tabela, nem no espaço, nem no tempo, menos ainda nos dois. Ler sobre a Alemanha, a França ou a Inglaterra de fins do século XIX não ajuda muito a conhecer os problemas do Brasil de 2007;
· introduzir, nos nossos curricula, conhecimentos úteis, baseados em contextos parametricamente semelhantes ao que vivemos ou derivados diretamente de pesquisas feitas sobre o Brasil;
· alterar a agenda de pesquisas da nação, fazendo com que elas, efetivamente, se dirijam para o benefício da maioria e não para satisfazer a curiosidade diletante do pesquisador. Pesquisar para, e não pesquisar por pesquisar. Pesquisar por pesquisar se faz enquanto se aprende a pesquisar, como aluno;
· aumentar o conhecimento tanto substantivo quanto adjetivo dos ativistas, para que possam orientar melhor os formadores de opinião e os formuladores de políticas públicas;
· num país no qual a titulação formal é altamente valorizada, fazer com que os ativistas adquiram as titulações mais elevadas, evitando que sejam excluídos de concursos públicos por insuficiência de títulos;
· contribuir para a sistematização do conhecimento que, no mundo aplicado, está esfarelado;
· tirar mais benefícios cognitivos das pesquisas já existentes, dos investimentos já efetuados pelo Brasil (lembro: um país pobre) em pesquisas que estão acumulando mofo eletrônico.
As maneiras pelas quais proponho atingir esses objetivos são duas:
1. Seminários comuns, preferencialmente trabalhando resultado de pesquisas ou teorias contemporâneas;
2. Realização de pequenos trabalhos conjuntos, analisando em artigos acadêmicos dados já existentes.
Eu me proponho participar das duas e ajudar no que for possível, sublinhando o óbvio, de que certamente teremos honestas diferenças de opinião que não devem impedir o trabalho em colaboração. Em verdade, essas diferenças podem sugerir muitos objetos de pesquisa.
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