A paz feita de lutas

boxe-emilie.jpgComplexo da Maré, Rio de Janeiro. Lá nasceu, em 2000, o Centro Esportivo e Educacional Luta Pela Paz (CEELPP). O projeto começou em uma pequena sala onde não havia sequer espaço para as aulas de cidadania, mudou-se para um espaço dentro de uma academia de musculação e passou por mais um endereço na comunidade Nova Holanda, onde agora festeja o primeiro ano de seu prédio próprio. Na festa de um dia inteiro, realizada em 30 de agosto, muitos comemoravam não o novo prédio, mas uma vida nova.

Para treinar no CEELPP basta ter vontade. O espaço não é de exigências, mas de acolhimento no primeiro contato. O jovem não precisa necessariamente estar matriculado na escola, mas é fundamental que ele volte para ela em algum momento. A metodologia tem como principais pontos o esporte, a cidadania, a educação, o trabalho e a formação de líderes jovens.

A escolha do boxe como cartão de visitas pode gerar estranhamento, mas é bem justificada pelo coordenador do projeto, o antropólogo e ex-boxeador Luke Dowdney: “O esporte é uma válvula de escape para a adrenalina, o que ajuda o jovem a trabalhar melhor o hormônio. Além disso, é uma disputa individual na qual não há vítimas, o que estimula o protagonismo sem criar o sentimento de invencibilidade ou vitimização”.

capoeira-d.soares.jpgA idade mínima para a prática do boxe é 14 anos, mas os adolescentes e crianças mais novos não são prejudicados. Para eles há aulas de capoeira e luta livre também no CEELPP, além das aulas de cidadania, ministradas a todos desde o início do projeto.

Atualmente há entre 180 e 200 jovens envolvidos no Centro, muitos como alunos e outros, mais antigos, como líderes e instrutores nas aulas. Numa conversa com quatro deles, conhecemos suas histórias e a trajetória do Luta Pela Paz.

Roberto Custódio, 19 anos, luta pela paz desde 2001

Quando Roberto chegou ao CEELPP o projeto funcionava em uma pequena sala alugada da Associação de Moradores do Parque União, no Complexo da Maré. Naquela época as aulas de boxe dividiam espaço com uma academia de musculação e os alunos treinavam em um espaço pequeno, onde não havia sequer ventilador.

As aulas de cidadania competiam com velórios e cultos religiosos em um espaço não-oficial, mas do qual todos faziam questão. “As aulas de cidadania ajudam a mudar a mentalidade de muitos que chegam aqui com a intenção de aprender boxe para brigar na rua”, explica Roberto.

Este tipo de comportamento é severamente punido no Luta Pela Paz. Quando algum caso de briga é reportado aos educadores, o jovem pode ser suspenso ou, conforme a gravidade, até expulso do projeto. “Mas com o tempo a grande maioria vê que o boxe serve mais para a defesa do que para o ataque”, pondera o jovem.

De funcionário de locadora de vídeo a auxiliar técnico nos treinos do CEELPP, Roberto viu sua vida mudar radicalmente depois de entrar para o projeto. Em abril de 2006 ele fez sua primeira viagem internacional, para a Irlanda do Norte, onde competiu e conquistou a vitória como lutador de boxe. “Se não fosse pelo projeto, eu nunca saberia que existe essa tal Irlanda do Norte”, comenta com bom-humor.

Para quem lutou muito por todas essas conquistas, a emoção logo aparece ao falar do novo prédio. “Quando vejo que alguns jovens não dão valor ao Centro, eu penso no quanto batalhamos para tê-lo”, lamenta. “Lembro que mesmo quando era uma salinha numa academia a gente dava muito valor”, conta orgulhoso.

Roberto, assim como todo jovem, quer ser muitas coisas. “Já pensei em ser lutador profissional, técnico ou fazer carreira militar”, sonha. “Mas quero ser piloto de jato, não quero pegar em arma”, conclui.

Sinval Cordeiro, 27 anos, luta pela paz desde 2002

Sinval conheceu o CEELPP por meio de três amigos, moradores da comunidade, que participavam das aulas de boxe no projeto. Quando chegou tinha 22 anos e, segundo ele, “já tinha vivido tudo que jovens de comunidades carentes costumam viver”.

Nem tudo. Hoje em dia o centro esportivo também é opção para os que chegam como Sinval chegou: fora da escola, sem trabalho e com a sensação de que o caminho que traçam não vai levar-lhes ao melhor destino.

sinval%20d.soares.jpgContrariando suas próprias expectativas antes de participar das aulas do Luta Pela Paz, Sinval se transformou em uma liderança. É membro do conselho jovem do projeto e trabalha junto às educadoras sociais para manter a assiduidade dos jovens. “Quando detectamos a evasão, eu acompanho a educadora à casa do aluno para procurarmos saber os motivos de sua ausência”, conta. “Como moro aqui desde que nasci, conheço muitos deles e suas famílias, o que facilita o acesso”, justifica.

Mas a posição de liderança que Sinval assumiu não é apenas uma conseqüência do fato de ter nascido no Complexo da Maré. Ela tem relação também com seu desempenho como aluno de boxe, seu envolvimento pessoal e seu interesse pela metodologia do CEELPP.

Antes de trabalhar no Luta Pela Paz, ele foi selecionado através do projeto para um estágio de seis meses em uma multinacional. “Quando cheguei me mostraram que era possível alcançar o sucesso de maneira diferente. Voltei a estudar, associei esporte e educação”, relata.

Daniel dos Santos, 18 anos, luta pela paz desde 2003

Ele foi apresentado ao projeto por um amigo, mas assume que se dependesse dele não estaria lá. Antes de chegar ao Luta Pela Paz, Daniel diz que era um menino rebelde, agressivo e indisciplinado. Dois anos da disciplina do boxe e as sempre mencionadas aulas de cidadania fizeram com que o hoje fotógrafo mudasse o rumo de sua vida.

“Eu me envolvia com coisas ruins e sei que hoje em dia estaria morto ou preso se não estivesse aqui”, admite.

Depois de treinar por dois anos, o jovem conheceu a fotógrafa Kita Pedroza em um evento. “Ela despertou em mim a vontade de aprender fotografia”, conta Daniel. O jovem ganhou uma bolsa na escola Ateliê da Imagem, na Urca, onde aprendeu o básico. No Observatório das Favelas, também no Complexo da Maré, fez o primeiro módulo do curso de fotografia avançado e em breve começará o segundo.

Daniel passou pela sala do Parque União, pelo espaço antigo na rua Teixeira de Melo e fala com orgulho da nova sede: “É uma emoção muito grande comemorar o primeiro ano do prédio, do nosso prédio”.

Manuela Lopes, 20 anos, luta pela paz desde 2003

Até 2003 o CEELPP era território masculino. Manuela chega junto com a primeira turma de meninas do Centro e chega para provar que a diversidade só acrescenta. Ela foi a primeira mulher a lutar em nome do Luta Pela Paz e seu sucesso hoje inspira muitas outras meninas que chegam por lá.

Manuela%20emilie.jpgManuela tem um filho de cinco anos cujo pai também é aluno do CEELPP. A criança passeia pelo ringue com a intimidade de quem leva no sangue o gosto pelo boxe. “Eu gostaria muito que ele seguisse meus passos e do pai”, idealiza Manuela. “Mas acho que, como mãe, eu não ia gostar de ver meu filho apanhar”, conta entre risos de quem sabe que pode vencer esse desafio.

Ela explica que, assim como muitos dos rapazes, procurou as aulas de boxe porque estava interessada em aprender a bater. “Eu não era uma menina, digamos assim, muito simpática. Era brigona mesmo”, assume. “O boxe me ensinou a agir com disciplina e calma e as aulas de cidadania me ajudaram a exercitar a capacidade de resolver os conflitos com a conversa”.

A jovem conta que ficou muito nervosa na primeira luta, mas hoje em dia não tem dúvidas quanto ao que quer para si. “Depois que vim para cá tive vontade de voltar a estudar e hoje em dia treino para ser pugilista profissional”.

Fotos: D. Soares (capa, capoeira, Sinval); Emilie Reiser (boxe, Manuela)

Veja a galeria de fotos do Luta Pela Paz.

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