Campanha contra violência armada reduz índices de homicídio em Chicago
ENTREVISTA/ Amanda Geppert

Com sede no Chicago Center for Violence Prevention, a campanha CeaseFire (CF) combate um problema enraizado nos bolsões de pobreza de todo os Estados Unidos: homicídios. Membro do CF há dois anos e meio, Amanda Geppert conversou com o Comunidade Segura sobre esta campanha da sociedade civil que trabalha com sucesso na diminuição do número de mortes ocasionadas por armas de fogo em Chicago.
Ovacionado por criminologistas por sua metodologia inovadora, o CeaseFire aumentou de 15 para 25 o número de comunidades em que atua, apenas em 2006, e hoje leva sua experiência de mediação de conflitos para a Costa Leste dos EUA, inicialmente em Newark e Irvington, em Nova Jersey.
Responsável por uma redução de 50% a 75% no número de incidentes com armas de fogo nos bairros mais violentos de Chicago, a campanha trabalha com a polícia, líderes religiosos, moradores e outras organizações sociais e iniciativas governamentais. Mas é o contato direto com os agentes e vítimas da violência que faz da experiência ser especial. Isso significa trabalho nas ruas, visitas a residências e conversas pessoais com membros de gangue. O trabalho também consiste em organizar manifestações em resposta à violência armada, churrascos noturnos para ocupar o espaço público e visitas a vítimas da violência hospitalizadas.
“Gary Slutkin, nosso diretor executivo, acredita que o problema da violência armada pode ser resolvido através de uma mudança de comportamento. E essa forma de tratar a questão acabou realmente por levar-nos aos resultados que esperávamos”, afirma Amanda.
Por que o CeaseFire é uma campanha e não um programa?
EmbO CeaseFire é um programa no sentido de que é replicado em outros locais dos EUA, ele é também fundamentalmente uma campanha. Nós tratamos a violência assim como o governo trata questões relacionadas à saúde. Levamos informação a quem precisa, chamamos atenção para a expansão da violência e mostramos como a mudança de comportamento pode contribuir para controlá-la e atenuar os índices de criminalidade.
Quais são os objetivos da campanha?
O CeaseFire procura, principalmente, fazer com que as pessoas vejam o homicídio como uma anomalia. Não é normal que alguém seja assassinado na porta de sua casa, nas ruas, em seu bairro. Desencorajamos o tipo de julgamento que culpa a vítima, como costuma acontecer quando ela é membro de gangue. Certamente é muito mais fácil mobilizar a comunidade quando se trata do assassinato de uma criança, entretanto qualquer crime que envolva a polícia é visto como controverso.
Por conta disso, organizamos manifestações comunitárias a qualquer assassinato. Os membros de nossa equipe vão de porta em porta e perguntam se os moradores daquele bairro se houve algum homicídio e se eles gostariam de participar de um ato público para denunciá-lo.
O que possibilita o trabalho com a comunidade e até mesmo com membros de gangues em ambientes tão hostis?
O bairro pertence aos moradores e é o contato interpessoal que recupera os laços perdidos entre os moradores locais. O CeaseFire entra em contato com os agentes da violência através de pessoal treinado e interessado em combater o problema. Grande parte de nossos mediadores são ex-membros de gangues, muitos passaram algum tempo na prisão e todos se comprometeram em abandonar essa vida. Eles estão envolvidos em passar uma mensagem bem clara: parem de matar.
No que consiste o trabalho dos mediadores?
Eles trabalham em pares e cada par tem pelo menos 15 clientes de “alto risco”. Nosso agentes usam roupas que torna fácil identifica-los para fazer contato com os membros de gangues e dizer-lhes que não são favoráveis a atividades ilegais, mas que estão lá para falar de homicídios. A fronteira é bem delimitada: de um lado estão nossos mediadores e sua mensagem, mas uma vez que os membros de gangue cometem um crime, passam a ser de responsabilidade da polícia.
Quem são os clientes? O que determina um cliente de “alto risco”?
Os clientes são pessoas da comunidade passíveis de serem usuários ou vítimas de armas de fogo, com idade entre 16 e 25 anos, mas a maioria é maior de 20 anos. Já ter sido vítima de arma de fogo é um critério para definir um cliente de alto risco. Pesquisas mostraram que quem já foi ferido com armas de fogo tem duas vezes mais chances de ser morto nos três anos seguintes. É aí que entramos.
Como é o cenário típico de um potencial homicídio?
Um exemplo seria o retorno de um ex-membro de gangue a seu bairro após ter passado alguns anos na prisão. Ele vai tentar retomar sua posição na gangue ou seu território, mas no período em que esteve ausente certamente houve uma série de mudanças que alteraram a estrutura daquele grupo, o que muitas vezes faz com que sua participação ali não faça mais o menor sentido para a gangue. É justamente neste grupo, de ex-líderes, que encontramos muitos candidatos a mediador.
Como é a relação do CeaseFire com as instituições de segurança pública?
Ter boas relações com as instituições de segurança pública é fundamental para nós. A polícia é parceira no projeto, promovemos reuniões com membros dela regularmente e trocamos experiências. Os policias avisam aos coordenadores do CF quando ocorre um homicídio para que possamos organizar uma mobilização comunitária. Além disso, nos organizamos para que as visitas de nossos mediadores não coincidam com as batidas policias. Assim, é possível prevenir homicídios e mensurar os resultados desse trabalho.
Qual é a perspectiva de futuro dos mediadores de conflito?
A construção de uma cultura de paz é um trabalho duro, nem todos estão preparados para ele. É necessário ter conhecimento, contatos e um talento especial para isso. Um mediador de conflito ou um interruptor da violência arrisca a vida constantemente, e depois de dois ou três anos está esgotada. Precisamos considerar isso e sabemos que não é algo simples de ser resolvido.
Em que diferem os interruptores da violência dos mediadores de conflito?
Os interruptores da violência podem ser definidos como negociadores da paz. Eles atuam na cidade inteira e não agendam suas visitam em uma determinada comunidade ou de acordo com as batidas policiais. Eles têm contato pessoal com os mais importantes líderes de gangues da cidade, têm a liberdade de ligar para eles, se for o caso. É possível para eles saber se um assassinato está sendo planejado e intervêm para que não ocorra.
Qual é o custo do programa?
Os mediadores de conflito ganham aproximadamente US$35 mil por ano, conforme a origem dos recursos e se eles recebem benefícios ou não (o valor é comparável ao que ganha um jovem recém-saído da faculdade nos EUA). Gastamos cerca de US$250 mil em cada comunidade, mas precisaríamos de mais US$100 mil para funcionar como gostaríamos. Por outro lado, a violência causada por armas de fogo custa ao cidadão que paga seus impostos; custa os gastos governamentais com hospitais, com prisões, custa a liberdade de ir e vir. A estimativa é de que apenas os gastos hospitalares somem US$39 mil por vítima.
Metade dos homicídios em Chicago são atribuídos às gangues. O CeaseFire promove tréguas entre as gangues?
O CeaseFire tem se envolvido em negociações entre gangues, e com mais sucesso com as gangues de afrodescendentes do que com as de latinos. O impacto da erradicação da violência some gradativamente depois de algum tempo e talvez este seja um aspecto das gangues que precisa ser considerado. Agora é o momento de pensarmos em maneiras de consolidar os sucessos da campanha.
Como é o acesso ao mercado de trabalho para ex-membros de gangue?
Não existe transição gradual para o mercado de trabalho. Infelizmente, após alguns anos na prisão – alguns passaram mais da metade de suas vidas atrás das grades – a pessoa não está preparada nem tem o conhecimento necessário para passar com sucesso por uma entrevista de emprego. Temos parceria com instituições que trabalham neste campo, conseguimos algumas colocações no mercado de trabalho, mas ainda é uma tarefa árdua.
Traduzido por Aline Gatto Boueri
Galeria de imagens do Chicago CeaseFire








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