'Custo para recolher armas é menor do que o de tratamento de criança ferida por bala'
Em dez anos, o programa de recompra de armas do condado de Allegheny, no estado norte-americano da Pensilvânia, tirou das ruas 8.192 armas de fogo em condições de uso, entre as quais pistolas, revólveres, fuzis e escopetas. Além destas, foram recolhidas armas como as de ar comprimido, as pistolas usadas em largadas de provas esportivas (atletismo e natação), e munições para diversos calibres. Há também as que não tinham mais condições de uso.
O diretor Executivo da Goods for Guns, Nathaniel Glosser, explicou ao DESARME todo o processo do programa do condado de Allegheny, considerado o mais duradouro do país e tido como modelo para os Estados Unidos.
DESARME: Existe uma metodologia específica para o êxito de um programa de recompra de armas?
Nathaniel Glosser: Existe o aspecto de como funciona o programa, e também a base em que ele se apóia. Ambos são importantes.
Há dois propósitos básicos para a recompra de armas nos EUA: a prevenção à violência e a prevenção de ferimentos. Apesar de esta distinção não ser valorizada por quem não está envolvido neste tipo de programa, é muito importante para Goods for Guns e outros que usam o mesmo modelo, para sua própria existência e longevidade. Muitos programas de recompra são lançados devido a um desejo da comunidade de reduzir a violência que ocorre na região. Esses programas normalmente têm vida curta, uma vez que não há provas de que a recompra de armas reduza a violência. A comunidade, depois de um ano ou dois, decide que não há resultados positivos, e busca outras soluções. Somando-se a isso, ativistas pró-armas os desprezam e criticam como sendo de motivação política e ineficiente, e uma ameaça àqueles que tem direitos adquiridos.
Recompras que empregam o modelo preventivo de ferimentos, seguido pelo Goods for Guns, obtêm mais sucesso. Há indícios de que a recompra reduz o número de ferimentos acidentais e mortes de crianças e outras pessoas, fornecendo recursos para os que querem se desfazer de armas não desejadas e divulgando a mensagem de que armas em casa são perigosas e quem optar por mantê-las em casa, tem de deixá-las descarregadas, trancadas e guardadas fora do alcance de crianças e usuários não autorizados. O modelo preventivo de ferimentos tem o benefício adicional de atrair o interesse e apoio dos que cuidam da saúde pública, uma vez que se torna uma campanha de saúde pública.
Muitos programas, sejam eles de prevenção de ferimentos ou da violência, trabalham da seguinte maneira: uma comunidade se junta para formar uma coalizão a fim de levantar os recursos necessários para operar uma recompra. No caso do Goods for Guns, somos uma coalizão composta pelas polícias de múltiplos municípios que compõem o nosso condado, hospitais, médicos, departamento de saúde, grupos da comunidade e pessoas envolvidas que desejam reduzir a ameaça dos ferimentos e a morte por arma de fogo às crianças da nossa região. Escolhemos locais baseados no interesse da comunidade e programamos a mesma data para todos os locais. Enfim, arrecadamos fundos de instituições de caridade privadas, iniciativa privada e pessoas preocupadas com a saúde de nossas crianças.
Como o programa é operacionalizado?
NG: Antes do evento, divulgamos a recompra por meio da mídia local, que tem sido maravilhosa em sua cooperação conosco. Agendamos uma coletiva de imprensa na quinta-feira anterior à recompra, realizada em dois sábados seguidos. Na sexta, realizamos uma vigília para lembrar aqueles que perderam para a violência armada. O evento tem ampla cobertura da mídia. No sábado, fazemos a recompra, novamente com a mídia cobrindo. Repetimos tudo na semana seguinte. O número de armas recebidas no segundo sábado sempre supera o das recebidas no primeiro sábado, por causa da cobertura gerada no primeiro sábado. Nós damos vales-compra no comércio local, geralmente para uma cadeia de supermercados ou de lojas de departamento. Outros programas têm sido criticados por recolher armas relativamente baratas e velhas, dando dinheiro para que as pessoas compram armas novas e mais mortais. A variação do valor dado nos EUA para as armas é de US$ 25 a US$ 100. Goods for Guns dá vales de US$25 para fuzis e escopetas e US$ 50 para revólveres e pistolas. Isso é menos que o valor para a revenda em muitos casos. Esse tipo de evento acontece geralmente uma vez por ano numa determinada comunidade.
Qual é o destino do material entregue nos programas?
NG: Recolhemos munições, acessórios, armas inoperantes, fuzis de ar comprimido, pistolas de largada, bombas de gás lacrimogênio. A munição é queimada pelo esquadrão de bombas do condado. Itens não-letais, como miras, coldres e outros acessórios são encaminhados para o depósito de lixo municipal. Todas as armas de fogo, sejam de ar comprimido ou as que disparam com pólvora, operantes ou não, são permanentemente desativadas. As armas de fogo disparadas por pólvora são desativadas e usadas em projetos de arte, tais como o Boris Bally’s Gun Totem (http://goodsforguns.org/ploughshares/index.html).
O modelo do Good for Gun já foi implementando em outras cidades?
NG: O modelo de saúde pública do Good for Guns está em uso em outras cidades, na maior parte sob nomes diferentes. Uma exceção é Worchester, em Massachusets, onde uma cópia-carbono do programa, com o nome incluído, está sendo operado com sucesso.
Por que a experiência do Goods for Guns é considerada um modelo para os EUA?
NG: Muitos programas de recompra de armas vêm e vão. O Goods for Guns provou que o modelo de saúde pública em que baseamos o programa, com a estratégia dos dois sábados, trabalha melhor para atrair mais armas per capita e na prevenção de ferimentos acidentais de crianças por armas. Estando em operação contínua há dez anos, mostramos a necessidade do programa, os contínuos bons resultados, números sempre significantes de recolhimento de armas. Todos os outros programas que conheço e que duraram mais que dois anos conheceram quedas dos números de armas recolhidas a cada ano. Mas no ano passado houve um aumento de quase 15% de recolhimento em relação ao retrasado, o que nos indica que o programa ainda é muito necessário. Esperamos ver queda contínua em ferimentos e mortes por armas nos próximos anos.
O que você chama de atitude predominante para pôr em prática os programas?
NG: As recompras de armas são freqüentemente criticadas pelos proponentes dos ‘direitos’ às armas nos EUA como sendo transgressores dos seus direitos adquiridos. Temos nos EUA uma situação nada fácil: um debate nacional sobre a necessidade de regularizar as armas sob os interesses da segurança pública, versus uma idéia crescente de que a posse de uma arma é protegida por uma cláusula de nossa constituição (a Segunda Emenda). Enquanto a nossa Corte Suprema já tratou adequadamente essa questão, os defensores do uso de armas alegam que qualquer tentativa de retratar as armas como perigosas é uma violação aos seus direitos.
Isso tende a atrair controvérsias à recompra de armas, às vezes os previne de todos acontecimentos, e às vezes os esvazia. Esse tipo de atitude também origina estudos ilusórios que lançam dúvidas sobre a eficácia das recompras de armas e os induz a se esquivarem de soluções para a violência armada nos EUA. Goods for Guns espera fornecer seu modelo a muitas outras comunidades dos EUA como prevenção para os ferimentos em crianças causados pelas armas. Em média, oito crianças e adolescentes são mortos todos os dias por armas nos EUA, segundo os dados mais recentes disponibilizados pelo Centers for Disease Control and Prevention, órgão do nosso governo federal. Não podemos permitir que a controvérsia nos incline da nossa meta de eliminar as mortes por armas e ferimentos às crianças.
Existe uma rede de ONGs nos EUA que atuam em programas de recompra de armas?
NG: Não existe uma entidade nos EUA coordenando recompra de armas, seja governamental ou não. Não há nenhum método de disseminação da informação que não seja a mídia, por meio de artigos em jornais e na Internet. Todas as minhas informações vêm de buscas na mídia e de periódicos relacionados à saúde e às comparações ocasionais das notas daqueles envolvidos em atividades similares em outras cidades. Tem havido interesse em desenvolver uma rede nacional para recompras, mas esse esforço ainda não se concretizou.
A recompra é suficiente para reduzir a violência armada nos EUA? E as campanhas educativas e de prevenção?
NG: Não há uma simples resposta para a violência armada nos EUA. Recompra de armas certamente não o fará sozinho. Mas as recompras de armas são essencialmente campanhas preventivas e educativas.
Muitos outros esforços educativos são necessários para reduzir a violência nas nossas comunidades. Recursos legais são também necessários para aumentar a responsabilidade do proprietário da arma e mantê-las fora do alcance das crianças, dos deficientes mentais, e dos criminosos já condenados. Considero que a diretriz legislativa seja nada mais do que uma represa para o fluxo de sangue que corre nas nossas ruas. É uma medida tapa-buraco necessária, mas até que eduquemos o público sobre as maneiras de lidar com os conflitos que não incluem a violência, até que forneçamos mais e melhores cuidados de saúde mental para a população de baixa renda e especialmente até que forneçamos oportunidades econômicas reais aos menos favorecidos, o fluxo anual de sangue nos EUA causado pelas 30 mil mortes e 120 mil feridos não diminuirá.
Existe alguma participação ou apoio do governo aos programas? O setor privado ajuda?
NG: Há vários anos, o presidente Bill Clinton destinou alguns milhões de dólares ao propósito da recompra de armas. Goods for Guns jamais recebeu um centavo desse dinheiro, embora alguma verba tenha sido gasta em outras cidades para pôr em prática a recompra. Quase que imediatamente ao assumir o cargo, o presidente George W. Bush encerrou esse programa, embora o dinheiro ainda estivesse no fundo criado pelo seu antecessor. Goods for Guns recebeu menos que 1% desse apoio nos últimos dez anos de governos locais. Quase todo dinheiro levantado era da instituições privadas e de caridade. Nesses dez anos, gastamos menos dinheiro para recolher mais de 8 mil armas do que o custo para hospitalizar e tratar uma criança com ferimentos de arma que atinjam a coluna vertebral. Embora não tenha um conhecimento específico, minha impressão é a de que a maior parte dos fundos para recompra de armas vem da iniciativa privada.
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