Padre propõe discussões sobre violência e paz para complementar o processo educativo

O padre Marcelo Rezende Guimarães, coordenador da organização não-governamental Educadores da Paz e ativista da campanha contra as minas terrestres no Brasil, defendeu na Universidade Federal do Rio de Janeiro a primeira tese de doutorado no País sobre Educação para a Paz. Guimarães defende uma reestruturação do sistema educacional no mundo com o objetivo de reverter o caótico quadro de violência que assola quase todos os países.


Marcelo acredita que a humanidade chegou a esse ponto por causa de antigos tabus que se consolidaram ao longo dos anos e que hoje constituem o maior obstáculo para que seja implantada uma cultura de paz no mundo. Uma das maiores dificuldades que o clérigo enumera é a falta de discussões sobre as razões da violência e as formas para que a paz seja alcançada.


Para Guimarães, a violência é um problema cultural, contrariando a crença de que o ser humano é violento por essência. Autor do livro Cidadãos do Presente – Crianças e Jovens na Luta pela Paz, Marcelo conta 12 casos de violência envolvendo crianças e que servem para ser transformados em discussões dentro das salas de aulas.


A entrevista que vem a seguir é a primeira parte da que será publicada em duas partes no DESARME.


DESARME: Em que consiste o trabalho da Educadores da Paz?


MRG: A ONG que está ligada a uma campanha mundial que existe sobre a educação para a paz. Nós trabalhamos basicamente a questão de formar professores e educadores para trabalharem a educação para a paz nas escolas. O procuro trabalhar é a visão que a guerra e a violência não são naturais, são produções culturais. Portanto, são inversões sociais, e elas entram na área de algo que se aprende.


DESARME: Na prática, como então isso é trabalhado pela ONG?


MRG: A educação para a paz trabalha dois aspectos: ajudar as pessoas a criticarem a produção cultural da violência e trabalhar na questão dos conflitos. Tem a produção cultural que a família faz da violência, pois costuma-se dizer ‘filho meu se apanhou tem que bater’ ou ‘em briga de marido e mulher ninguém mete a colher’. Se passa também para as cantigas infantis, por exemplo: as quadrilhas que as crianças aprendem na escola e que achamos bonito, como ‘lá vem a lua nascendo redonda com o um balão, menino me dá um beijo que te dou um bofetão’. E a criança vai aprendendo que à menina cabe a sedução, e ao menino o bofetão. Isso é passado para o ambiente das ruas. Como Foulcout constatou, no Ocidente, aprender e ensinar está muito associado a vigiar e punir. E se não acontece isso fisicamente hoje, há uma racionalização da visão da história, que é compreendida através das guerras. É a Guerra dos Cem Anos, as duas Guerras Mundiais, que nem foram mundiais mas que etnocentricamente foram entendidas como mundiais. Assim, a visão da escola sobre a história é bélica e armamentista. Quantos aos conflitos, eles fazem parte da humanidade. O problema é como resolvemos esses conflitos, pois somos treinados e educados para acharmos que ou resolvemos os conflitos na base da violência e achamos normal, ou que somos treinados para tapar o sol com a peneira, numa prática que está muito ligada à não resolução dos conflitos, deixando a coisa rolar. Não existe a alternativa de capacitação de resolver os conflitos sem a violência. Ora, se os conflitos são tão cotidianos e importantes na vida, a gente precisa aprender uma forma de resolvê-los de forma pacífica e é aí que entra a educação para a paz. É preciso haver uma discussão, um consenso, debate. É o uso da razão comunicativa, da capacidade que os seres humanos têm de expor as idéias e chegar a um consenso.


DESARME: Mas por que então que as escolas não praticam o debate e a discussão?


MRG: É preciso criar espaços para discutir isso no processo educativo. Por exemplo, na escola, propusemos criar oficinas da paz. Uma vez que é ensinado e trabalhado história e geografia, por que não trabalhar a paz? Então proponho criar círculos de culturas de paz. Aquilo que o Paulo Freire propunha, fazer um círculo de cultura para a alfabetização. Acho que precisamos ser alfabetizados para a paz. Nós somos treinados e educados por uma cultura de violência. Para sermos alfabetizados para a paz precisamos discutir a violência e expor esses mecanismos de produção cultural da violência, que são muito complexos. Isso aí está muito ligado entre nós ao que chamo de mito da violência redentora. A violência tem entre nós uma força de redenção, de solução dos problemas. O exemplo que temos vem de cima, dos governantes. Num outro dia ouvimos o secretário de Segurança Pública do Rio afirmando que, caso encontrasse traficantes, iria ‘prender todo mundo’ ou que ‘mataria todo mundo’. Vejam só: a ordem é matar.


DESARME: Existe então uma apologia à violência?


MRG: Há aí, por exemplo, a questão do desarmamento, pois há todo um fascínio pela arma, a ostentação pela arma que traz várias conseqüências. A arma tem uma vinculação com a violência e militarismo. Por exemplo, há as canções dos fuzileiros navais norte-americanos, que diz ‘this is my rifle and this is my gun. One is for killing and one is for fun’ (esse é o meu fuzil e esse é o meu revólver. Um é para matar e o outro é para diversão). Acho que precisamos conversar sobre isso. Nós contestamos muito pouco a produção da violência. Acho que os meios de comunicação hoje possibilitam uma certa emoção, uma comoção pública, mas precisamos possuir uma opinião pública a respeito da violência.


DESARME: Como a educação para a paz pode então ser implantada?


MRG: A educação para a paz serve tanto para a escola formal quanto para a educação não formal. A escola produz e racionaliza as violências. Por exemplo, hoje na escola há pouco espaço para questões democráticas. Qual é o lugar mais democrático da escola? É a porta do banheiro, que é o lugar onde os alunos podem dizer o que pensam, suas fantasias. A nossa escola tem uma transmissão de conhecimento de cima para baixo. Não há espaço para debates e discussões. Aí entra a questão que a violência muda, pois quando você não aprende a discutir, você lança mão da violência. Acho que uma política de prevenção à violência na escola e fora está ligada à capacidade das pessoas de aprenderem a discutir. Precisamos criar espaços para debater essas questões, esses temas importantes como violência e paz, que mexem com a vida da gente e nos influenciam. Conversamos muito rapidamente sobre tais assuntos e não há um espaço de aprofundamento sobre isso, seja da violência ou da paz.


DESARME: Mas e dentro das escolas, existe algum tipo de mobilização?


MRG: Acho que a escola aproveita pouco o potencial das crianças e dos jovens de educá-los para a paz. Um dos aspectos importantes é apostar no adolescente e no jovem, que têm interesse nessa discussão. Há um protagonismo infanto-juvenil nesse sentido que é pouco aproveitado. Eles querem e têm interesse, mas às vezes a escola aproveita pouco isso. Por exemplo: quem tocou muito na campanha das minas no Brasil foi um grupo de jovens no Sul. E por quê? Porque nós passamos essas informações, e os jovens levaram a questão à frente. É preciso aproveitarmos a capacidade política da juventude.


DESARME: Mas os jovens não estão muito expostos e propensos à prática da violência?


MRG: Mas é isso que estou falando. O jovem foi educado a resolver os conflitos buscando a arma. É na escola que se é treinado para resolver os conflitos na base da violência, seja ela social, física ou psicológica. Muitas vezes os próprios professores quase que passaram por cima de alguns direitos das crianças e dos jovens, que é aprender a resolver os conflitos de forma pacífica. A escola tem que sair do limbo, e se transformar num grande centro promotor de paz. Atualmente a escola tem uma relação com a produção da violência, pois fala sobre os valores, mas as práticas escolares não são democráticas. Como que os conflitos são resolvidos na escola? É sempre com os professores dando a última palavra, ou então os conflitos entre os alunos são resolvidos com brigas. Mas essas coisas que regem a vida não entram no mundo da escola, e aí é que está a questão. É tão importante a gente aprender os conflitos quanto aprender fórmulas químicas e equações matemáticas. A vida a toda hora é feita de conflitos, que não são contra a paz. Luta é uma coisa, guerra é outra. A competitividade faz parte da humanidade. Agente tem que perceber as maneiras de resolver nossa competitividade. Os conflitos podem enriquecer as pessoas, e sem violência. A educação para a paz quer trazer para a escola alguns temas que às vezes não se aprende, como a discussão sobre conflitos, paz, violência, armamentos, sobre a questão de gênero, de raça, de ecologia.


DESARME: Podemos dizer então que discussões sobre paz estão quase que excluídas do debate social?


MRG: Hoje em dia a paz é um guarda-chuva que entra muita coisa, e qualquer coisa vira ‘paz’. A paz é uma espécie de refrão. Mas quais são as condições para vivermos em paz? A questão do desarmamento é uma das facetas da educação para a paz. Se a educação para a paz é para e sobre o desarmamento, então como funciona um mundo sem armas? É preciso começarmos a discutir isso, porque senão sempre o desarmamento vai virar algo à parte. É preciso pensar como vai funcionar a economia se não houver mais armas, e o que vai ser da política internacional sem as armas. É preciso também pensar quais são as condições para vivermos em paz, começar a pensar na paz não só como um ideal para amanhã, um sonho ou uma utopia, mas sim um projeto de ação.


DESARME: Essas dificuldades ocultam as discussões?


MRG: Acho que a questão hoje mais séria é que nós privatizamos a paz. A paz tem uma noção essencialmente coletiva, política, social que foi privatizada, houve um processo de interiorização da paz. As pessoas falam ‘a minha paz’, ‘eu quero ter a minha paz’, ‘preciso ter primeiro a paz interior e depois que eu vou dar a paz para os outros’. E aí é um processo de mercantilização da paz. A paz hoje é uma mercadoria. Você pode ver em vários outdoors que ‘se você quer ter paz, compre tal coisa’. Eu posso ter um carro, um sapato, uma casa. Mas a paz não é um objeto de posse. Então a nossa linguagem, como o Ocidente acabou produzindo o conceito de paz, levou exatamente isso, à paz muito individualizada, como um ideal para amanhã, não para hoje. É uma paz muito teórica, muito da palavra, do discurso, da mensagem. Daí vem a crítica de Gandhi, pois uma vez perguntaram a ele ‘qual a sua mensagem de paz’, ele disse ‘eu não tenho mensagem de paz. Minha mensagem é minha vida. Nisso, ele estava criticando essa concepção extremamente teórica de paz. Uma concepção de paz muito estática, pouco dinâmica. Era uma concepção de paz muito negativa, como a ausência de guerra, e pouco positiva, como, por exemplo, de justiça, direitos humanos, de democracia. Então acho que precisamos discutir as nossas concepções e fazer essa previsão.



DESARME: Já houve alguma mobilização que caminhasse nessa direção?


MRG: Em 1999, 600 organizações pacifistas do mundo todo se reuniram na Holanda para comemorar os 100 anos da Conferência de Haia pela Paz. Eles lançaram algo muito interessante, que são as 50 Propostas de Haia para a Paz, que eram 50 pontos para operacionalizarmos a paz. Precisamos fazer esse debate do projeto de paz para a humanidade. A paz não pode ser uma coisa distante. A educação para a paz dentro e fora da escola precisa ser um espaço argumentativo, onde começamos a conversar essas questões, a botar na mesa o que nos dizem respeito e produzir um consenso. Por exemplo, a campanha contra as minas produziu um consenso. A campanha começou em 1991 e achavam que era uma loucura, mas em seis anos conseguiram um tratado universal, o Tratado de Ottawa, que no dia 1º de março desse ano fez quatro anos que entrou em vigor. Nesses período, o número de países produtores passou de 52 para 14, e as vítimas passaram de 25 mil anuais para 15 mil anuais. Houve uma redução do comércio e também dos estoques. É isso que eu estou falando sobre a contribuição da educação para a paz: através da discussão, se começou a produzir um consenso.