O mito do 'super-predador'

Não podemos deixar que a execução de Stanley ‘Tookie’ Williams abafe a sua mensagem: precisamos de alternativas para o “sentimento visceral do ódio-a-si-mesmo”, que leva tantos jovens de periferia a atos de selvageria (quase sempre investidas homicidas).


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No entanto, se nos guiarmos pela história recente de Los Angeles, veremos que a cidade ainda não está preparada para esta mensagem. O tratado de paz entre Crips e Bloods, em 1992, para o qual Williams contribuiu de dentro do corredor da morte, cortou pela metade a violência das gangues.


 


Mas esta paz não trouxe quaisquer dividendos à cidade, a trégua depois perdeu força (apesar de nunca ter sido completamente desfeita). O plano para a reconstrução urbana após os confrontos de rua, também em 1992, o chamado Rebuild LA (reconstruindo Los Angeles), mobilizou nada menos que 6 bilhões de dólares da iniciativa privada para criação de 74 mil empregos em cinco anos. Mas os investimentos infelizmente duraram pouco. A região mais afetada pelo fenômeno das gangues perdeu ao todo 50 mil empregos nos anos 90. Neste vácuo, a ira dos jovens explodiu e recomeçaram novamente as guerras entre grupos rivais.


 


Este era o cenário no qual William Bennett e James Q. Wilson introduziram o rótulo ‘super-predador’ para todos os potenciais ‘Tookies’. A idéia era que uma determinada porcentagem fixa da população de jovens seria composta de ‘natural born killers’ (pessoas nascidas para matar), assassinos natos, para quem investimentos e melhorias nas escolas ou oportunidades de emprego não surtiriam efeito algum – um conceito neo-Darwiniano que se encaixa como um luva num período de retração industrial e cortes de orçamento que varreu as áreas pobres como serras elétricas em florestas abandonadas.


 


A tese do ‘super-predador’ ajudou a justificar a maior expansão do sistema penitenciário da história americana – e cujo epicentro foi exatamente a Califórnia, um estado que tem em média cerca de 150.000 detentos, dos quais dois terços tidos como membros de gangues. Políticos e promotores agem de acordo com o modelo vertical usado na década de 20, em busca dos pretensos chefões, mas a verdade é que as gangues sempre se reabasteceram bebendo na fonte da sub-classe dos excluídos. Ano passado <?xml:namespace prefix = st1 ns = "urn:schemas-microsoft-com:office:smarttags" />em Los Angeles, havia 93.000 jovens entre 18 e 24 anos fora da escola ou sem emprego. No Estado da Califórnia, esse número sobe para 638.000.


 


O que faz, então, Los Angeles em face ao problema das gangues? O orçamento da cidade mostra que a prioridade é reprimir e encarcerar, ao invés de procurar dar um novo rumo para estas vidas afligidas. 55 milhões de dólares são investidos na Polícia de Los Angeles para a repressão de gangues, contra a soma paliativa de 12 milhões destinados a programas de prevenção, e meros 2 milhões para programas de intervenção para tirar adolescentes da rota da violência.


 


Para sair da roda viva da violência e escolher o caminho da paz precisamos:


 


- Compreender que membros de gangues são veteranos traumatizados com guerras nas ruas, e não enviados do Diabo, nem psicopatas intratáveis. Deve haver uma expansão massiva de programas de reabilitação e capacitação semelhantes ao modelo dos Alcoólatras Anônimos, que conte com a participação de ex-membros de gangues que sejam respeitados e levados a sério.


 


- Promover a reforma das policias e políticas prisionais punitivas responsáveis por criarem uma realidade de ruas sem lei. Jovens de comunidades pobres se sentem alvejados por este sistema, condenados à humilhação.


 


- Reconhecer que temos em mãos uma crise marcada pela exclusão social e desemprego estrutural, responsável por inúmeros jovens perdidos, impotentes, desenraizadas, cujas vidas carecem de sentido.


 


Execuções espetaculares podem funcionar para desviar a atenção do povo das falhas e dos crimes cometidos pelo governo. É mais fácil culpar o ‘super-predador’ que a superpotência. Mas, ao contrário da cultura anglo-saxã de gangues do passado, que se espalha nostalgicamente pelo cinema e pela televisão, as únicas portas que se abrem para as novas gerações de gangues urbanas são as portas das penitenciárias.


 


Um país que deixa de providenciar salários dignos a tantos de seus jovens demonstra maior compromisso com os privilégios atuais que com seu futuro potencial. É um Estado que, para não ouvir a mensagem, mata o mensageiro. Mas acredito que ‘Tookie’ Williams escapou aos seus algozes. Seu mito e sua mensagem foram compreendidos mundo afora. Mais cedo ou mais tarde, prestaremos atenção.


 


* Tom Hayden já foi eleito Senador pelo Estado da Califórnia, escreveu “Street Wars” (ed. New Press, 2001) e entrevistou Stanley ‘Tookie’ Williams na Prisão de San Quentin, na Califórnia, em 2002.


 


Fontes: www.tomhayden.com; LA Times