Testemunhos da alegria, da dor e da graça da vida

Nos dias atuais, em um lugar chamado Brasil, a sensação de insegurança tornou-se a tônica do cotidiano, seja no campo ou na cidade. Cada vez mais, o temor de ser atingido pela violência domina a vida, e, diante disso, muitos de nós alteramos itinerários; evitamos sair à noite; colocamos grades e alarmes em nossas casas; almejamos blindar os automóveis ou nos mudarmos para territórios fechados ou cidades menores, na busca, muitas vezes ilusória, de segurança; enfim, mudamos nossos hábitos e o sentido da vida cotidiana. São estratégias pessoais de sobrevivência, na ânsia de sobreviver em um mundo percebido como a antítese da dignidade e solidariedade humana. 

Estranho mundo esse, em que os moradores das áreas nobres se sentem ainda mais inseguros do que os cidadãos das periferias e das favelas, que sempre sentiram na face, de forma plural, o peso da violência sobre seus territórios e corpos. O assassinato de 17 pessoas nos bairros do Leme e de Copacabana, em 2004, e de 617 em Irajá e Acari, bairros da periferia carioca, demonstra como a dor da morte, a mais extremada, ainda ameaça de forma distinta os diversos cidadãos da cidade. Como se faz necessário proclamar, para além do legítimo desejo individual de se preservar, que toda a vida vale à pena.

E, dentre elas, cabe proclamar mais alto o direito à vida das crianças, adolescentes e jovens, herdeiros de nosso mundo e do futuro. Todavia, são eles as maiores vítimas da violência letal, da banalização da morte. Os grandes centros urbanos, em particular, se tornaram, mais do que todos, os espaços da morte e da insana violência, sob várias facetas, contra nosso futuro.

As imagens que constituem a presente obra são emblemas que nos alimentam, de diversas formas, na busca de superarmos estes tempos de dor e medo. Elas revelam, no ato gratuito e mágico de viver, crianças, adolescentes e jovens moradores de favelas e outros espaços populares dos grandes centros urbanos e de áreas rurais.

As fotos revelam diferentes estilos de vida, cultura e beleza vividos dessas crianças e jovens. E, como não poderia deixar de ser em nossos tempos atuais, nos fazem lembrar também da morte, visto que vários dos personagens presentes nesse livro tiveram sua vida brutalmente abreviada por armas assassinas. O que buscamos com essas imagens da vida, inclusive as que não mais existem, é afirmar que a valorização da existência de todos, e de cada um, é essencial para escaparmos da banalização da morte, para a construção de uma efetiva cidadania, para um arranjo de cidade e campo mais justo e democrático.

Reconheça nestes versos e imagens, cara leitora, caro leitor, seres plenos, que amam, choram, lutam, brincam e que tem muito a nos dizer sobre si e sobre o mundo. E querem apenas, antes de tudo, ter o direito de viver suas vidas, de forma sempre intensa e ampliada.

Ouçamos, então, o que estas crianças, adolescentes e jovens têm a dizer com suas expressões e gestos; mas os ouçamos com a mente e o coração abertos, atentos para todos os pressupostos e preconceitos que carregamos. Dentre eles, em especial, a naturalização da ação da polícia, e da política, no sentido de que a “guerra às drogas”, dentre tantas outras, pode continuar sendo sustentada no combate e na violência contra os moradores da periferia, das favelas e dos campos.

Só na ruptura com o senso comum, reprodutor da violência que dizemos repudiar, poderemos penetrar nessas vidas simples e profundas, calculadas e leves. Expressões possíveis das formas plurais do cotidiano dos herdeiros, muitos deserdados, desse país e das nossas cidades. Bem-vindo à favela, à periferia, ao campo, bem vinda ao nosso mundo. Que, nessa leitura profunda, possamos nos sentir humanos, radicalmente humanos.