Reconstruindo a educação no Haiti, de baixo para cima
Rafael Parente *
Mesmo antes do desastre, o sistema educacional no Haiti já tinha problemas enormes: 50 por cento das crianças não frequentavam a escola; escolas privadas, gerenciadas por igrejas e ONGs atendiam 80 por cento das crianças sendo educadas; as mensalidades das escolas privadas eram altas para a realidade da população e só 30% dos alunos chegava ao 6º ano do ensino fundamental; a falta de professores qualificados e livros didáticos adequados levavam a baixos resultados acadêmicos e altas taxas de reprovação e evasão; havia um deficit de escolas, principalmente nas áreas rurais; grande parte das universidades tinha problemas sérios de infraestrutura, turmas superlotadas e falta de professores; quase metade da população sofria com o analfabetismo.
Em um país onde aproximadamente metade da população ainda não atingiu 18 anos, o futuro das crianças e jovens que sobreviveram à catástrofe foi completamente abalado pelo terremoto. Escolas e universidades foram destruídas, muitos professores, coordenadores e diretores de instituições de níveis variados morreram e milhares de crianças perderam seus pais e familiares.
Grandes organizações transnacionais fazem planos para a reconstrução do país e concordam que a educação é fundamental para o futuro desenvolvimento do país. Enquanto isso, a própria população decidiu não esperar pela ajuda oficial e começou a fazer o que precisa ser feito – muitos grupos comunitários se auto-organizam, se adaptam a uma realidade um pouco mais cruel e cooperam para transformar o dia de amanhã em algo menos sofrido.
É preciso tomar cuidado com o excesso de zelo e burocratização dos esforços para ajuda e levar em consideração que ninguém entende melhor dos haitianos do que eles próprios. Ao mesmo tempo, afinidades sociais e culturais fortes entre o Haiti e o Brasil sinalizam que algumas soluções educacionais que têm funcionado por aqui podem ser adaptadas culturalmente e preencher lacunas nesse processo de reconstrução.
Grande parte das inovações educacionais iniciadas recentemente no Brasil vem de ONGs, organizações comunitárias, ou outros institutos sem fins lucrativos. O Projeto Uerê, por exemplo, trabalha com crianças e jovens que sofreram traumas causados pela convivência diária com a violência, fazendo com que bloqueios na cognição e problemas de aprendizagem, como dislexia, sejam agravados.
O projeto começou com a experiência de Yvonne Bezerra de Mello com crianças de rua. Após a chacina da Candelária, em 1993, os sobreviventes foram morar embaixo de um viaduto, onde Yvonne começou o atendimento diário a 120 crianças. Esse trabalho estimulou a educadora a estudar causas dos traumas psicológicos, incluindo a parte neurológica e a desenvolver uma metodologia própria que inclui exercícios para desbloquear os traumas, resgatar suas auto-estimas, estimular os sonhos e reintegrar crianças e jovens a suas comunidades.
Hoje, Yvonne aplica seu método em uma escola do Projeto no Complexo da Maré, o maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro, e nas Escolas do Amanhã, programa que reune um conjunto de escolas municipais situado em áreas conflagradas da cidade. O Programa Escolas do Amanhã também inclui outras duas iniciativas que poderiam ser aproveitadas na reconstrução do sistema educacional do Haiti.
O “Bairro-Educador”, da ONG Aprendiz, relembra aos moradores de comunidades carentes que “é preciso um bairro para se educar uma criança.” A educação, formal ou informal, não precisa e não deve esperar ou ficar confinada a paredes de novas escolas – ela pode acontecer em praças, jardins, igrejas, casas ou qualquer espaço minimamente apropriado para a reunião, orientação e cuidado de crianças e jovens. Membros de comunidades, como músicos, cozinheiras, pedreiros, mecânicos, ou simples contadores de histórias são convidados a dar oficinas artísticas e profissionais. Os “oficineiros” trabalham 4 horas por dia e são remunerados de acordo com o número de grupos atendidos, o que lhes rende entre R$60 e R$300 por mês.
A ONG Redes da Maré, também localizada na Maré, faz um trabalho relativamente parecido, buscando reunir e organizar talentos da própria comunidade para oferecer reforço educacional combinado com atividades culturais, como atividades lúdicas para a aprendizagem de matemática misturadas com teatro e música. A força dessas duas alternativas está na utilização de recursos físicos e humanos que já estão disponíveis localmente, o que pode ser realizado mesmo numa área de desastre, como é o caso do Haiti.
Além dessas ações criadas e articuladas por organizações comunitárias, algumas políticas públicas governamentais devem ser analisadas para possível adaptação ao contexto haitiano. O Bolsa Família, programa de transferência de renda com condicionalidades, dá uma ajuda financeira a famílias pobres que mantém crianças e jovens nas escolas e vacinados. Minimamente, é preciso subsidiar o direito à educação formal e à alimentação das crianças haitianas.
O Programa Universidade para Todos (ProUni) concede bolsas de estudos integrais e parciais em instituições privadas de ensino superior, que por sua vez recebem isenção de tributos. Uma versão especial, voltada para alunos haitianos, poderia ser criada por todos os países das Américas, com a condição de que os alunos beneficiados teriam de retornar ao Haiti depois do término dos estudos para construir o futuro do país.
Finalmente, há também novidades brasileiras no campo da filosofia educacional. O Professor Antônio Carlos Gomes da Costa adaptou ideias do Relatório Jacques Delors, da Unesco, que apresenta o conceito dos quatro pilares da educação (aprender a conhecer, a fazer, a viver juntos e a ser) à realidade brasileira para conceber a educação interdimensional. Em sua filosofia pedagógica, o Professor transpõe esses quatro saberes em macro-competências e capacidades que podem ser facilmente avaliadas e sugere o desenvolvimento da educação para valores, para o auto-cuidado e para o autodidatismo, entre outros conceitos.
Essas são apenas algumas soluções operadas no Brasil que têm sido avaliadas positivamente e que poderiam ser adaptadas ao contexto haitiano atual. Como o tempo urge, é essencial que as prioridades sejam claramente ordenadas, que as ações sejam transparentes e que a cultura local seja sempre respeitada.
Fontes utilizadas:
http://www.nytimes.com/2010/02/14/world/americas/14schools.html
http://www.nytimes.com/2010/03/15/opinion/15mon3.html?th&emc=th
http://www.unicef.org/emerg/haiti_52590.html
http://web.worldbank.org/WBSITE/EXTERNAL/COUNTRIES/LACEXT/0,,contentMDK:21896642%7EpagePK:146736%7EpiPK:146830%7EtheSitePK:258554,00.html
http://www.marginalrevolution.com/marginalrevolution/2010/01/education-in-haiti.html
http://en.wikipedia.org/wiki/Education_in_Haiti
http://www.nationmaster.com/country/ha-haiti/edu-education
http://www.unesco.org/en/education/dynamic-content-single-view/news/education_is_at_the_core_of_haitis_recovery_and_is_the_key_to_haitis_development_une/back/9195/cHash/fabfdacc72/
http://www.loc.gov/rr/international/hispanic/haiti/resources/haiti-education.html
http://aprendiz.uol.com.br/content/rocheprewr.mmp
http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=15133:brasil-ajudara-a-recuperar-a-educacao-superior-no-haiti&catid=212
http://odia.terra.com.br/portal/rio/html/2009/8/cdd_sera_bairro_educador_27405.html
* Educador, pesquisador e trabalha atualmente como subsecretário de projetos estratégicos na Secretaria Municipal de Educação do Rio De Janeiro. É mestre em gestão educacional pela universidade PACE e está na fase final de um PhD em educação internacional e desenvolvimento na Universidade de Nova York (NYU). Seus principais interesses são: sistemas educacionais da América Latina, utilização de tecnologias de informação e comunicação na educação e parceiras público-privadas nos sistemas educacionais.






Comentários
Enviar novo comentário