Controle de armas ao alcance das mulheres
ENTREVISTA / Sarah Masters
As mulheres podem se envolver em questões de desenvolvimento e outros assuntos, mas não estão necessariamente a par do impacto de armas de fogo em suas vidas. Elas podem ter consciência das consequências da violência armada em suas comunidades e vidas pessoais, mas podem pensar também que não cabe a elas interferir.
Por fim, elas podem saber tudo sobre violência armada, mas talvez não tenham confiança para se tornarem interlocutoras com organizações nacionais e internacionas. É aí que a rede de mulheres da Rede Internacional de Ação para Armas Pequenas (Iansa, na sigla em inglês) entra em ação.
"Nosso objetivo é incluir as mulheres do movimento feminista nas ações contra as armas pequenas e leves, e também fazer este movimento pensar nas mulheres", diz Sarah Masters, coordenadora da rede de mulheres da Iansa, uma rede que está presente onde quer que mulheres levem a sério a questão da violência armada. Seu papel é criar plataformas para as mulheres se conectarem com os governos e organizações internacionais, articular iniciativas locais e facilitar a criação de fóruns só para mulheres, onde informações técnicas pode circular mais facilmente, e voz das mulheres ser ouvida.
"No Burundi, mulheres locais estão participando de um movimento pró-desarmamento. Isso pode acontecer lá, e pode acontecer no Reino Unido", diz Masters. "Não há inevitabilidade na violência armada; só retirando de circulação as ferramentas que facilitam a violência contra a mulher, você não acaba com o problema, mas ele se torna menos letal", explica.
Sarah Masters esteve no Brasil para um simpósio sobre igualdade de gênero e conversou com o Comunidade Segura.
Como a rede envolve as mulheres na luta pela redução da violência armada?
Muitas organizações de mulheres não têm foco em armas, esse é só um dos aspectos do seu trabalho. Elas podem estar trabalhando com direitos humanos, democracia ou saúde da mulher, mas veem que essas questões estão sendo afetadas negativamente pelas armas. Na Iansa, damos a elas oportunidades para o envolvimento em campanhas contra as armas pequenas, como a Semana Global de Ação contra a Violência Armada, que organizamos todo mês de junho.
E localmente?
Ser membro da rede de mulheres da Iansa é também uma forma de reconhecer que há um problema, porque, em alguns lugares, mesmo quando há a compreensão de que há um problema, é difícil para as mulheres se posicionarem sobre eles. Pode representar uma ameaça para alguns dos homens, e estes são geralmente os donos das armas.
Pode dar um exemplo?
Estou falando do Burundi, onde as iniciativas pró-desarmamento das mulheres locais (Dagropass Amagaranikindi) liderou um movimento na província de Bubanza para encorajar o recolhimento de armas e a sua destruição. As armas foram coletadas e oficialmente entregues para autoridades provinciais no dia 31 de agosto de 2007.
A iniciativa conscientizou as pessoas de que duas pessoas são mortas por armas todos os dias na província. Também ressaltou o fato de que as armas de Bubanza podem circular por todo o Burundi. As mulheres, entretanto, estão também sendo ameaçadas por homens do local, que não são seus amigos ou parentes. A pergunta que eles fazem é: 'por que vocês querem tirar nossas armas'?
O que você faz como coordenadora da rede?
Parte da minha responsabilidade é tentar aproximar iniciativas locais como essa com o escritório das Nações Unidas para desarmamento, com o departamento de Operações de Paz, com pessoas que trabalham com DDR (Desarmamento, Desmobilização e Reintegração). O que eu faço é convencê-los não somente a escutar essas mulheres, mas lhes dar apoio. Fui recentemente informada de que, por exemplo, um grupo de mulheres fez as coisas com as próprias mãos e coletou 17 armas. Isso é significativo, pois são 17 armas tiradas das mãos de pessoas que poderiam usá-las.
A sua rede é global, e a violência armada cobre uma gama enorme de situações. Que papel o controle de armas tem para as mulheres na África em especial?
A República Democrática do Congo tem níveis incomparáveis de violência sexual, e muito dessa violência é facilitada pelas armas. Conheci um médico incrível do hospital de Panzi; ele trata mulheres cujas vaginas foram destruídas. Dr. Mukwege - da RD Congo - me contou que alguns grupos armados de fato atiram nas mulheres após estuprá-las, para marcá-las, e mandar um recado. Dr. Mukwege acredita que seja uma tática específica criada para romper a estrutura da comunidade, e isso a gente não havia percebido. Isso quer dizer que há formas pelas quais as armas contribuem para a violência contra a mulher, e que precisam ser trazidas à luz e - claro - eliminadas.
Como você articula as pessoas em organizações muito locais com a rede de mulheres da IANSA?
Trata-se de fazer a conexão particular entre violência e armas. O Dr. Mukwege tem lidado com violência contra a mulher já há algum tempo, mas ele não estava de fato pensando nas armas. Isso frequentemente acontece com os membros da Iansa; de repente, uma luzinha acende e você percebe o papel daqs armas.
É claro que isso é tão verdadeiro para a RD do Congo quanto para o Reino Unido. Você imagina que as armas de fogo são inevitáveis, mas é claro que isso não precisa ser assim, pode ser mudado. Você pode remover os instrumentos da violência, e mesmo que não eliminemos a violência em si, reduzimos a ameaça da violência letal. Também sabemos que armas brancas facilitam a violência, mas não tanto quanto uma arma de fogo.
Vocês capacitam mulheres? Instrução, conscientização e educação fazem parte do trabalho?
Geralmente, temos membros bem ativos nos países, e eles contatam novos grupos, mostrando materiais que criamos. O secretariado pode ter materiais em inglês e espanhol, e agora em português. Gostamos de dar suporte a pessoas que já estão envolvidas. No Quênia, há a KANSA - a rede de ação do Quênia para armas de pequeno porte -, há uma rede sueca - SANSA; os membros da IANSA criaram suas próprias redes nacionais. São autônomos.
Quem tem experiência com recolhimento de armas se preocupa com o destino de armas coletadas. Precisam ser guardadas num lugar seguro, desativadas, registradas...
Sim, isso é verdade. Há sempre a preocupação de que essas armas voltem a circular. Levanto esse problema com o departamento da ONU que trata de desarmamento, ainda que não tenhamos fundos para apoiar todas essas iniciativas.
A IANSA desenvolveu procedimentos para lidar com isso?
Temos vários papeis na nossa rede; não é nosso propósito criar algo que nossos membros já estão criando. Temos membros que podem estar focados em processos de desarmamento, é o seu trabalho. E o nosso é descobrir o que nossos membros estão fazendo e promover o seu desenvolvimento.
Então a rede de mulheres IANSA é mais como um fórum?
Isso também, um fórum; mas também uma oportunidade para envolver as mulheres, mobilizá-las. Sinto que há a necessidade para espaços só para mulheres no movimento contra armas de pequeno porte. É visto como muito técnico, como dominado por homens - muito do movimento é ligado a segurança militar. Precisamos pensá-lo no âmbito da segurança humana, da comunidade, do lar, não por causa de alguma visão estereotípica das mulheres, mas porque é aí que há o maior perigo para elas. Vamos lançar em junho uma campanha "Desarmar a Violência Doméstica", para conscientizar sobre políticas e leis que podem ser implementadas, e sobre o treinamento que é necessário para poder fazê-lo, para separar agressores das armas no ambiente doméstico.
Você concorda que as mulheres são mais indiretamente afetadas pela violência armada que os homens?
Onde há estatísticas disponíveis, os homens são entre 80 e 90% dos diretamente afetados pela violência armada, em termos de mortes. As mulheres são afetadas de uma forma mais indireta, que vai da posse de armas no lar que é usada como intimidação até conflitos armados que facilitam a violência e agressão sexual. As mulheres são frequentemente necessárias para tratar aqueles que ficaram incapacitados pela violência armada, e podem ser forçadas a tornarem-se o provedor econômico do lar. Algumas mulheres envolvem-se em grupos armados e conflitos, mas em grande parte são os homens que o fazem. As mulheres têm um grande fardo quando você se dá conta que relativamente poucas delas estão usando ou portando armas de fogo.
E sobre o papel das mulheres e o seu envolvimento em uma cultura de violência armada?
Há alguma pesquisa sobre isso no Brasil, mas nós não estamos envolvidos com isso agora. A Iansa tem uma rede de jovens, com um potencial para lidar com perspectivas de gênero com as pessoas mais jovens.
Como a rede dá apoio para organizações de mulheres, em termos concretos?
Facilitação do fluxo de informações, descobrir que algo está acontecendo, compartilhar essa descoberta com alguém, usar isso como um modelo para outros membros da rede... A questão da solidariedade é muito importante, particularmente porque as mulheres enfrentam enormes pressões e problems. Sentir que elas são parte de algo maior lhes dá força para continuar, além da oportunidade de participar em reuniões formais - nacionais, regionais e internacionais.
Você mencionou a necessidade de reuniões só com mulheres. Poderia explicar isso um pouco mais?
Tendemos a ter experiências diferentes das dos homens, e nossas formas de compartilhar experiências e estratégias são diferentes. Eventos só para mulheres oferecem um espaço importante e seguro para aquelas que porventura achem que o movimento contra armas de pequeno porte é inacessível. Há a necessidade de haver algum ponto de entrada, e na rede de mulheres elas vão para esses fóruns, para saber o que está acontecendo.
Na reunião da ONU, ano passado, tivemos nossas reuniões só de mulheres, bem como eventos paralelos com público misto e somente palestrantes mulheres. Um resultado interessante foi que nossas discussões resultaram na campanha Desarmar a Violência Doméstica - algo que não teria acontecido se não fosse assim.
Vocês levaram essa idéia para o nível local também?
Muitas das mulheres tendem a fazer assim, embora a rede também inclua homens; envolve e reconhece os homens. É um espaço fundamental que podemos oferecer para que cada um ouça as vozes dos outros.
Qual é o próximo passo?
Capacitações para mulheres que incluam tecnologia das armas, políticas, leis, o processo da ONU, desarmamento, para citar alguns temas. O treinamento também permite que as mulheres que detêm o conhecimento mas não a confiança reafirmem-se como experts, para que sejam capazes de falar com o governo, ou para para ir à ONU e falar com um Estado-membro como uma delegada. Trata-se de empoderamento, de criar oportunidades, de permitir que elas pensem que pode sim caber a elas fazê-lo. Temos que fazer muito mais no que toca à capacitação.
Leia mais:
International Action Network on Small Arms








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