E a caravana passa...

Texto produzido pela parceria portal Comunidade Segura e Fórum Brasileiro de Segurança Pública

 

caravana_BH_mesa.jpg

Após passar por 22 estados, a Caravana Comunidade Segura 2009 esteve na comunidade da Pedreira Prado Lopes (PPL), em Belo Horizonte, para discutir temas da segurança pública e, principalmente, incentivar o desarmamento voluntário da população. A comunidade, que num passado recente tinha altas taxas de crimes violentos, vem se destacando por quedas drásticas nos índices de criminalidade.

De acordo com dados do Centro Integrado de Informações de Defesa Social (Cinds/Seds), Pedreira Prado Lopes teve uma redução de 100% no número de assassinatos entre 2005 e 2008. Em 2009, foram registradas apenas sete ocorrências de homicídios no local.

Segundo o secretário de Estado e Defesa Social, Maurício Campos, a escolha da PPL para receber a caravana é emblemática. Para ele, "a política de segurança associada a ações de polícia e programas de prevenção tais como o Fica Vivo e o Mediação de Conflitos tem permitido certa emancipação da comunidade para que conflitos banais não se tornem tragédias", explica.

A solenidade contou com a presença do delegado de Polícia Federal responsável pela Campanha do Desarmamento em Minas Gerais, Daniel Fábio Fantini, de representantes das polícias Civil e Militar, do Corpo de Bombeiros, de profissionais da política de prevenção do estado, membros do grupo de jovens Mobilização - da mesma comunidade -, além de representantes da sociedade civil.

A Caravana Comunidade Segura é uma realização da Oscip Viva Comunidade e da Rede Desarma Brasil, com o apoio do Viva Rio e financiamento da Secretaria Nacional de Segurança Pública. Ela está no seu sexto ano já tendo desenvolvido temas como: controle de armas, desenvolvimento institucional das polícias, juventude e violência armada e política de drogas. Este ano, seu foco é a política nacional de controle de armas e a mobilização da população para a Conferência Nacional de Segurança Pública (Conseg), que acontece no final de agosto.

Vanguarda

everardo_aguiar_BH.jpgEverardo de Aguiar Lopes (foto), coordenador da Caravana, abriu o evento cumprimentando o estado pela sua atuação na área de segurança pública, principalmente na prevenção à criminalidade. Segundo ele, "falar em de prevenção em Minas Gearis é chover no molhado, pois o estado está na vanguarda do país", elogiou.

Lopes falou sobre a experiência que a Caravana vem ganhando ao cruzar o país de ponta a ponta e da visão positiva que eles vêm tendo em outros estados. Ele ressaltou a experiência da polícia do Amazonas que mantém um programa ao vivo na TV que promove um diálogo com a população de forma transparente. "O Brasil que vemos é o Brasil silencioso, que faz mudanças efetivas. É a polícia que conversa com a sociedade civil. É a sociedade que deixou de ser espectadora para tomar seu lugar", afirmou.

O coordenador falou ainda da necessidade da mudança de paradigmas que deve ser feita em termos da segurança pública. Segundo ele, "antes, ter uma arma era fator de prevenção. Hoje sabemos que há outras formas de se fazer isto, que não é a violência", comentou.

E chamou a atenção para a importância da mídia perceber estas mudanças e a necessidade de olhar para a juventude não como a faixa da população que mais mata, mas que é vítima de abandono pelo poder público. "Nós andamos pelo país e vemos a juventude armada, mas precisamos ressaltar que esta arma foi comprada por um adulto", defendeu.

Ainda falando em mudanças de paradigmas, Everardo surpreendeu dizendo que a ampla maioria dos homicídios no Brasil é cometida pela arma que é comprada legalmente e vai parar na criminalidade. Por isso, ele explica que a Caravana comunica-se com o cidadão que compra armas acreditando que é para se defender, mas acaba sendo ele o prejudicado. "A arma do crime quem deve tirar é a polícia. Quem pratica atividade criminosa não vai entregar a sua arma. Nosso público é o cidadão comum que compra a arma, achando que a arma o protege", esclarece.

daniel_fantini_PF.jpgOs dados da Polícia Federal vão na mesma direção. Segundo Daniel Fantini (foto), a maioria das armas de fogo utilizadas em crimes é adquirida legalmente. "Está mais que provado que estas armas compradas pelos 'cidadãos de bem' chegam até o crime", relata. Ele falou sobre a importância do esforço da sociedade e dos órgãos do governo abraçarem a causa. “Entregar armas é um ato de paz e principalmente de valorização da vida humana", opina.

Em 2008, segundo dados da Secretaria de Estado e Defesa Social de Minas Gerais (Seds), a Polícia Federal recolheu um total de 1.527 armas em Belo Horizonte e região metropolitana. Em 2009, até agora, foram recebidas 483. Para o secretário Maurício Campos, no entanto, a campanha pelo desarmamento em Belo Horizonte é tímida, apesar do controle de armas fazer parte de indicadores de resultados do estado. No entanto, segundo ele, "o desarmamento é etapa indispensável para a cultura de paz", acredita. Ele ressalta a importância da cooperação entre sociedade civil, governo, e outros atores, somando esforços para dar condições de convivência pacífica na sociedade.

Juventude contra a violência

Jovens do Programa Fica Vivo! da comunidade de Pedreira Prado Lopes abriram e encerraram a campanha com apresentações de percussão e teatro. O documentário “Pedreira em Ação”, realizado por 25 jovens do aglomerado e pelo o grupo Mobilização, em parceria com o Programa Mediação foi exibido para todos os presentes.

O vídeo, que ficou entre os cinco melhores no festival internacional de cinema Cinecufa 2009, mostra a atuação do grupo pelas ruas e becos da comunidade. Seu objetivo é mobilizar a população para temas que tocam a comunidade, como a necessidade de se fazer representada nas associações de bairro, questões de moradia, gravidez na adolescência, violência policial, educação, crítica a atuação da mídia na comunidade, entre outros.

Segundo Cristiane Fátima de Oliveira, integrante do grupo Mobilização, a exibição do vídeo foi ótima, porque mostra os problemas comuns enfrentados pela comunidade e faz ver que os jovens estão preocupados com outras coisas. "Não é só a criminalidade que nós enfrentamos. Nós temos problemas de moradia, saúde, educação", conta. Para ela, o debate sobre o desarmamento é fundamental.

Valéria Borges, idealizadora do grupo, fala da importância de se mostrar na mídia e para as autoridades uma comunidade que ninguém conhece. "Aqui não temos só pobreza, tristeza e barracos. Aqui tem gente que sente, sofre, ri e que deseja mudar. Nossos jovens querem transformar suas histórias de vida", conta.

Sobre o desarmamento, ela diz que a solução deveria ser mais simples. Para ela é questão de se ter mais amor na sociedade. "Olhando a palavra, desarmamento, eu pensei, se a gente tirasse o r, do desarmar, a gente não precisaria de campanhas. Se as pessoas sentissem amadas, elas não precisariam desarmar", conclui.

Para a superintendente de Prevenção à criminalidade da Seds, Fabiana Leite, trazer a Caravana para o aglomerado se mostrou muito positivo para todos os envolvidos. Segundo ela, Minas não quer fazer da campanha uma política de gabinete. "Quando o secretário e a Caravana vêm, eles valorizam a política que é feita na base. Sentimos a emoção desta comunidade ao projetar o trabalho dela diante de representantes do poder público e importantes atores da sociedade civil", comemora. "Ao mesmo tempo, quando estes mesmos atores conhecem o que está sendo feito na ponta, eles levam nossas experiências para outros lugares", aposta.

Segundo o coordenador do Albergue Municipal de Moradores de Rua de Belo Horizonte, onde está instalado o núcleo de prevenção à criminalidade no aglomerado e que sediou o evento, Gladston da Silva Lage, a promoção do diálogo é importantíssima para o trabalho de base e para os visitantes. "Trocamos experiência, estabelecemos parcerias, cooperamos, trocamos dados, limites e definimos estratégias", opina. No entanto, ele acredita que não bastam somente as campanhas para o desarmamento. "O que torna um povo pacífico é o processo educativo, melhores condições de vida e uma cultura de compreensão e diálogo", enfatiza.

Saiba mais:

Policiais fazem mediação de conflitos

Lógica do ganha-ganha na resolução de conflitos

'A realidade aqui é outra depois do Fica Vivo'

Dossiê Caravana Comunidade Segura 2009

Comentários

Enviar novo comentário

O conteúdo deste campo é mantido privado e não será publicado.
CAPTCHA
Isso serve para verificar se você é um visitante de verdade e não um robô, evitando, assim, o envio automático de spam.
Image CAPTCHA
Copy the characters (respecting upper/lower case) from the image.