Soluções privadas para a segurança pública
A vigilância de homens uniformizados possivelmente armados e o constante monitoramento por câmeras certamente ajudam a proteger o patrimônio de empresas, mas essa solução largamente utilizada no mundo corporativo tem sua eficácia limitada, já que não vai além de seus muros. A causa da insegurança continua logo ali, do lado de fora.
Nos últimos anos, com a ampliação do conceito de segurança cidadã, na qual segurança é direito de todos e dever de cada um, empresários vêm percebendo que não basta se lacrar numa redoma para viver em paz. É preciso olhar para o entorno e ver o que ele necessita para tornar-se mais pacífico. E para achar soluções, diálogo e criatividade têm se mostrado eficazes.
Nove casos de sucesso de empresas que promovem a prevenção da violência estimulando a melhora da qualidade de vida da coletividade foram apresentados na oficina "O papel do empresário na segurança pública", realizada durante o IV Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em São Paulo. Muitas experiências são resultado de parcerias bem sucedidas com órgãos públicos, organizações da sociedade civil e a própria comunidade local.
Um exemplo é o Programa Jovem de Expressão no DF, uma parceria de uma empresa seguradora e duas ONGs, uma cultural e outra de promoção à saúde. A partir do diagnóstico feito pela pesquisa “Determinantes da violência interpessoal entre os jovens do DF”, foi norteada a política de atuação social da empresa e criadas as bases metodológicas para a elaboração do programa, cujo objetivo é reduzir a exposição do público entre 18 e 24 anos à violência e promover sua saúde. Criado em outubro de 2007, o programa atende 300 jovens de Sobradinho II e Ceilândia e foi validado pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS). Uma investigação com os jovens do programa mostrou que para cada real investido, gera-se R$1,87 de lucro. Ou seja, a longo prazo, o investimento tem retorno garantido, beneficiando todas as partes.
Outro caso de sucesso foi a redução de roubos de cargas nas rodovias de São Paulo, a partir de um convênio entre a Secretaria de Segurança Pública e a Federação das Empresas de Transporte
de Cargas do Estado de São Paulo (Fetcesp). As fontes de informações foram consolidadas e as bases de dados unificadas com parâmetros comuns. Com isso tornou-se possível cruzar os dados sobre crimes disponibilizados pela Secretaria de Segurança com as informações mais detalhadas fornecidas pelas transportadoras e seguradoras, como tipos de carga, valores roubados e estradas mais visadas, permitindo o georreferenciamento e melhores análises do perfil dos crimes. Os relatórios, feitos desde 2006, tem ajudado as polícias a melhorar a segurança e as companhias a reduzirem as perdas.
Qualificação do debate
Além de divulgar boas práticas para incentivar novas iniciativas, a oficina realizada em São Paulo buscou a elaboração participativa de conceitos de segurança associados a responsabilidade social e construção coletiva da paz.
De acordo com a cientista social Ana Maura Tomesani (foto), coordenadora institucional do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que idealizou e comandou a oficina, o objetivo de reunir coordenadores e empresários envolvidos em cases era a produção de informações mais subjetivas sobre a maneira como os empresários entendem este tipo de investimento, as vantagens e desvantagens, as motivações e os entraves.
“A ideia das apresentações iniciais era fazer com que o público inscrito na oficina pudesse tomar conhecimento de experiências exitosas na área para ter repertório para a segunda parte da oficina, que era justamente a de trabalhar as oportunidades e os desafios para o investimento privado na área de segurança pública. Esta era nossa intenção e acho que fomos bem felizes neste propósito”, afirma Ana Maura.
A estratégia da oficina foi dividir os participantes em seis grupos após as apresentações. Foram formuladas três perguntas e cada grupo ganhou uma delas. Portanto, cada pergunta foi respondida por dois grupos.
Para a pergunta “Como diferentes atores podem ajudar a aumentar o investimento privado em prevenção da violência?”, surgiram respostas que valorizavam as aptidões de cada parceiro para um bom resultado do projeto. Por exemplo: ONGs que trabalham com prevenção da violência podem utilizar sua capacidade de gerenciamento de projetos e atrair investimento privado, ao mesmo tempo que o formato e a linguagem utilizados por empresas podem servir de inspiração.
Já o setor público poderia ajudar a incentivar o investimento privado reduzindo a burocracia das certificações e tornando a legislação mais clara e favorável para esses investimentos. Outro ponto levantado foi a importância da apresentação de resultados e prestação de contas à sociedade e a criação de mecanismos de incentivo, como selos de reconhecimento, isenção fiscal e prêmios.
Outra questão foi levantar maneiras de a iniciativa privada se envolver em prevenção de violência e segurança pública. Foi salientado por um grupo que a iniciativa privada só vai se envolver em projetos ligados à segurança pública se ela sair ganhando com isso, seja com benefícios para a imagem da empresa, aumento dos lucros ou diminuição dos prejuízos. Além disso, segundo o grupo, a continuidade dos projetos depende do interesse direto da empresa.
Por outro lado, outro grupo observou o fato de que muitas vezes a empresa traz problemas para a comunidade em que se insere. Por isso, quando investir em projetos ligados à segurança pública, a empresa pode até ter um retorno direto, mas os benefícios primários devem ser para a sociedade. A recomendação desse grupo foi a de que a empresa deve se envolver diretamente - e não só financiar - projetos relacionados à prevenção da violência. Segundo os participantes, seus conhecimentos em planejamento e gestão estratégica podem ampliar os resultados.
Já o grupo preocupado com o ganho sugere o envolvimento direto da empresa em ações que potencializem a prevenção da violência e que tenham as suas causas como foco. Esse grupo também defendeu o investimento em projetos de valorização dos agentes de segurança pública como forma de melhorar a prestação dos serviços públicos de segurança.
A terceira questão - "Quais são os motivos que podem fazer com que empresas aumentem seus investimentos em segurança pública?" – obteve respostas bastante objetivas. Para os participantes, são fortes motivadores o aumento da segurança dos funcionários, do patrimônio da empresa e da valorização do entorno da empresa; a perspectiva de diminuir prejuízos e gerar mais lucros; o reconhecimento como empresa socialmente responsável e a consequente valorização dos profissionais e dos produtos da empresa; além da comprovação, através de indicadores claros de resultados, de que o investimento feito gera retornos positivos públicos e privados.
Uma coletânea inspiradora
As colocações feitas pelos seis grupos na oficina serão compiladas e estruturadas num artigo que fará parte da publicação “O que as empresas podem fazer pela segurança pública”, que será lançada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social e a CPFL Energia no fim de maio. A coletânea reúne 16 casos de sucesso nos quais o investimento privado leva à redução da criminalidade, a partir da minimização de fatores de risco e ações de prevenção da violência.
Os casos incluem programas de desenvolvimento cultural e profissionalizante para jovens residentes em áreas com alto índice de violência; apoio privado para implementação de centros de emergências urbanas e sociais; revitalização de espaços públicos para reduzir fatores de risco relacionados à violência; ações que estimulam a participação e a promoção social de habitantes residentes no entorno de empresas.
A idéia é demonstrar que, com ações como estas, as empresas não apenas ganham a confiança da comunidade e dos funcionários, mas contribuem para o conhecimento sobre formas criativas de enfrentamento da violência, participando efetivamente dos processos recentes de reformulação dos serviços de segurança voltados para a prevenção e eficiência, bem como para a melhora da prática policial.
A maioria dos casos é na região Sudeste. O conteúdo também será disponibilizado em versão digital nos sites www.ethos.org.br e www.forumseguranca.org.br para download gratuito.








Comentários
SEGURANÇA É SUSTENTABILIDADE
Uma empresa que se insere numa comunidade sempre afeta seu modo de vida, em maior ou menor escala; dependendo da atividade econômica, do tamanho da empresa e da comunidade. As empresas privadas deveriam ser administradas de modo sustentável: economicamente, ambientalmente e socialmente. É fato que fazer uma empresa ser sustentável economicamente no Brasil já é uma proeza. Diante disso, a administração tem sido muito focada no lucro, deixando que o Estado resolva as questões de Segurança. Isso vem permitindo que os riscos se acumulem para a empresa e para comunidade. Mais cedo ou mais tarde isso acaba revertendo em prejuízos: para a empresa, para comunidade ou para a sociedade como um todo.
Tem sido assim: lucrar e deixar todo o problema da segurança para o Estado. Mas isso está se tornando inviável, mesmo com elevados impostos, pagos ou sonegados. As atividades econômicas devem preservar o meio ambiente e promover o bem estar social, não a marginalização dos membros das comunidades.
As empresas também devem assumir responsabilidades com a segurança, proporcionalmente ao risco que geram. Contudo, as empresas se acostumaram a transferir toda a responsabilidade para o Estado, que se mostra incapaz de resolver os problemas de segurança sozinho; seja por falta de vontade política, corrupção dos seus agentes ou mera incompetência.
Creio que o Estado é mesmo incompetente para resolver todas as questões da segurança sozinho. A prova disso é o artigo 144 da Constituição da República Federativa do Brasil: “Segurança é dever do Estado, direito e responsabilidade de todos”. O artigo constitucional deixa claro que o Estado assume o dever, mas divide a responsabilidade conosco. Ou seja, a atribuição é dele (do Estado), mas a responsabilidade é nossa (dos cidadãos). Sem a nossa participação o Estado não tem competência alguma, restando-lhe apenas um vago dever para com a Segurança.
Resumo: Sem a participação do cidadão responsável o Estado não tem competência para resolver as questões da Segurança. Sem investimento na segurança, as empresas privadas continuarão sob os riscos por elas gerados. Sem a tecnologia das empresas (privadas) de vigilância eletrônica, não haverá soluções eficazes de baixo custo. Sem a iniciativa privada, o Estado pouco pode fazer pela Segurança Pública.
Muitos coronéis - e outros agentes do Estado – exercem a atribuição na Segurança Pública de modo a criar um monopólio privado. Mas isso é um capítulo à parte...
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