Projeto leva cidadania e paz a escolas de Sergipe
Reportagem feita pela parceria Comunidade Segura e Fórum Brasileiro de Segurança Pública
A violência, a discriminação e as drogas são grandes adversários da educação em todo o Brasil, mas em colégios públicos de Aracaju (SE) esses obstáculos têm sido superados através da mobilização da comunidade. Por meio do programa Cidadania e Paz nas Escolas, o governo de Sergipe vem estimulando o protagonismo de alunos, pais, professores e diretores para a solução pacífica de problemas e a melhoria do ensino. Nesse processo, a participação da sociedade organizada e do poder público tem sido decisiva, inclusive em ações de segurança pública para evitar crimes.
A solução começou a surgir em agosto de 2008, quando os professores e policiais militares ligados ao programa começaram a atuar nas escolas públicas estaduais. "O Cidadania e Paz é uma parceria das secretarias de Estado da Segurança Pública (SSP) e da Educação (Seed) que objetiva desenvolver, com a participação da comunidade escolar, estratégias de intervenção e prevenção das incivilidades e violência dentro da escola", resume a coordenadora pedagógica do projeto, a professora Djanira Montalvão da Luz (foto).
Segundo Djanira, em cada escola a equipe estipulou metas de envolvimento das comunidades escolar e local no enfrentamento às diversas formas e dimensões de violência no ambiente escolar e em seu entorno. “Queríamos garantir o cumprimento dos princípios e das regras do convívio pacífico e assim iniciamos as atividades. Mas antes fizemos uma análise da violência nas escolas estaduais, pautados em uma linha de pesquisa social", explica.
Nesse levantamento, feito em parceria pela SSP e a Seed, os objetivos específicos foram levantar e mapear os casos de violência nas escolas e identificar os tipos de agressões mais recorrentes, compreender as políticas de enfrentamento a essa violência e como estas unidades estavam trabalhando a cultura da paz. "O estudo foi dividido em pontos importantes, através dos quais pudemos entender o fenômeno da violência em seus diversos aspectos, inclusive o bullying, que era outro fator desencadeador de agressões e discriminação", lembra a professora.
A coleta de dados da pesquisa, acrescenta Djanira, foi desenvolvida a partir de boletins de ocorrências, relatórios e dados estatísticos, além de entrevistas para levantar informações junto a alunos, direção, professores e profissionais da segurança pública. "Isso nos permitiu compreender a visão desses atores sobre a violência nas escolas e nos permitiu apresentar propostas inovadoras. Tivemos seminários, palestras e mutirões com os alunos e toda a comunidade e o resultado está aparecendo", revelou.
Mudança
O estudante do segundo ano do ensino médio Evandro de Mattos Pereira (foto), do Colégio Estadual Barão de Mauá, no bairro São Conrado, na capital sergipana, sabe bem o que essas ações significam. Ele acaba de completar 18 anos e sonha com o curso de Administração, mas aos 16 queria abandonar as salas de aula devido às agressões que sofria por seu modo de se vestir e falar.
"Eu já nem queria mais ir à escola. Até tentaram me bater" lembra. "Mas hoje todos me respeitam. Sinto-me bem no colégio, participo do grêmio e fico à vontade para estudar. Hoje eu sei também que isso que faziam comigo era bullying e como isso deve ser enfrentado", afirma.
Também prestes a concluir o ensino médio, Edcley da Silva Lobo, 18, é outro que reconhece e valoriza a mudança ocorrida na escola. Ele quer se tornar médico e se prepara para o vestibular. "Sei que vai ser difícil, mas há poucos meses isso era impossível. A gente mal conseguia ter aula, quanto mais se preparar para algo melhor. Mas isso mudou: antes tudo vivia quebrado, pichado ou era furtado mesmo e não sobrava nada para quem queria estudar. Agora dá gosto vir e participar das atividades junto com os colegas, a direção e quem mais quiser somar", defende.
Edcley e Evandro são dois dos que mais participam das reuniões de avaliação promovidas pelo projeto Cidadania e Paz nas Escolas, mas eles vão muito além. "No começo todos estranhamos essa ideia de conversar sobre o que acontecia aqui, pois tínhamos medo de falar. Havia gente vendendo e usando droga no colégio. Até arma eu já vi. Existia aqui uma espécie de lei do mais forte, que impedia a direção de fazer algo eficaz e duradouro", justifica Edcley.
Mas de acordo com os estudantes, a relação com os colegas e a direção do colégio mudou muito. "Hoje todos se sentem mais seguros para fazer parte das discussões, para cobrar uma postura dos outros alunos, para pedir e apontar soluções aos professores e coordenadores. Isso tudo é um avanço e foi trabalhado aos poucos. Não foi fácil, mas analisando com calma vemos o quanto evoluímos com o projeto Cidadania e Paz", reforça outro aluno do Barão de Mauá, Fellipe Matheus Nascimento, 16.
Fellipe é mais um que se orgulha de participar da transformação ocorrido. Durante a entrevista, ele e Edcley apontam o quadro montado no corredor da escola com fotos das atividades desenvolvidas. Numa das imagens está registrada a visita de um sargento da Polícia Militar. "Os policiais estão sempre presentes no dia-a-dia da escola quando é necessário, seja fazendo palestras sobre o perigo das drogas, conversando com a direção e professores ou ainda patrulhando mesmo a escola e o bairro, para evitar assaltos", reforça.
Segundo os estudantes, a participação da PM é positiva. "Pessoas que rondavam a escola para oferecer maconha e crack para os alunos foram presas e outros traficantes acabaram se afastando. Mas o papel principal da polícia foi mesmo na prevenção à violência. Exemplo disso foi o acompanhamento feito com as torcidas organizadas de times de futebol. Havia pessoas mal-intencionadas que tentavam atrair alunos sob o pretexto de torcer, mas era mesmo para brigar, destruir, usar drogas", reforça Edcley.
Empoderamento
Segundo a diretora do Barão de Mauá, Cristina Sampaio (na foto abaixo com alunos), a aproximação da direção, professores, pais, alunos e também da polícia foi fundamental e o resultado foi positivo para a retomada da confiança no estudo como caminho de vitória e da escola como ambiente seguro e fonte de oportunidade. "Afastamos velhos fantasmas como o vandalismo, o tráfico de entorpecentes e o preconceito, mas isso só ocorreu porque as pessoas se uniram", disse. "Nós nos unimos para conversar sobre o que precisava mudar. Com todos querendo foi mais fácil buscar ajuda do poder público, da imprensa, dos comerciantes, do terceiro setor, etc", afirma.
Segundo a diretora, o projeto ajudou a incutir na comunidade escolar a ideia de que tudo aquilo é deles, do apagador do quadro à trave da quadra. Esse sentimento de pertencimento é essencial para que as pessoas cuidem. “Se alguém acha que a escola é um bem comum e também dela própria, essa pessoa vai querer que o prédio e tudo o que ele representa seja preservado, que ele se torne melhor", acrescenta Cristina, lembrando que a escola foi toda pintada com a ajuda voluntária de alunos, pais e professores.
A estratégia de empoderamento permitiu, segundo Djanira Luz, que a escola criasse vida, que fosse vista como um ambiente salutar, agradável e protegido. "Quando chegamos aqui há dois anos encontramos situações difíceis de mudar. Havia inclusive um clima hostil, devido à presença de traficantes, ou melhor, de 'aviões' dentro da escola. Assim que detectamos isso, fomos buscando formas pacíficas de afastá-los ou demovê-los, quando eram alunos. Alguns, inclusive deixaram os narcóticos. Diante daquele quadro a polícia organizou um trabalho específico de investigação e de presença ostensiva e isso deu certo", comemora.
"As principais armas são o diálogo e a confiança" reforça Cristina, que tem 23 anos de carreira no ensino público e revela a satisfação de ter alcançado o apoio para gerir a unidade. "A Barão de Mauá fica numa região que abriga moradores de classe média baixa, mas atende a uma clientela de quatro bairros populosos e com uma condição até mais delicada e por isso se torna uma referência muito forte para a mudança de paradigma que todas essas crianças precisam para buscar um futuro melhor", coloca.
Ainda de acordo com Djanira, o resultado do programa tem sido o surgimento de uma cultura de paz, respeito mútuo, preservação do patrimônio material e imaterial. Além da Barão de Mauá, acrescenta a coordenadora pedagógica, o Cidadania e Paz nas Escolas já foi implantado com sucesso em mais duas escolas de Sergipe. “Para saber mais, os interessados podem visitar o portal do programa. Lá, o nosso público encontra também fóruns para participar das discussões, espaços reservados para denúncias e também galeria de fotos de eventos e artigos relacionados ao tema”, convida.








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