Haiti: reconstruir e fundar
Silvana Gontijo *
Com uma população de 9,8 milhões de habitantes, dos quais 47% são analfabetos e 80% vivem abaixo da linha da pobreza a história do Haiti já parecia um roteiro de tragédia humana encenada antes do drama final: o terremoto de 12 de janeiro de 2010.
O desafio de reconstruir um país devastado pela força da natureza e por séculos de miséria e malversação dos recursos públicos é comparável, na atualidade, ao pós guerra na Europa de meados do século XX.
Imaginar uma saída através da Educação Pública, como a conhecemos em nosso país, seria ignorar a realidade de um estado incapaz de garantir os direitos mínimos dos cidadãos haitianos.
Quais os recursos de que dispõe o país para refazer seu tecido social?
Como exercer a cidadania e exigir o acesso à educação quando a única lei em vigor é a do mais forte?
Qual a saída para os sobreviventes dessa catástrofe?
O que poderia uní-los e mobilizá-los para outros desafios além do de garantir a sobrevivência daquele dia?
De sua identidade histórica, linguística e religiosa é preciso erigir um código ético e de convivência dentro de um contrato social que traduza as aspiraçoes, os valores e os princípios que deverão reger o processo de reconstrução da nação haitiana. É preciso reconstruir a casa morando dentro.
O Brasil pode dar um exemplo eficaz de modelo de educação escolar associado à intervenção no espaço urbano com a particicpação da comunidade. O programa Bairro Escola em Nova Iguaçu – Rio de Janeiro, inspirado nos Projetos Aprendiz - São Paulo e Cidade Criança – MG, pode inspirar ações educativas em Porto Príncipe e no interior do Haiti.
Para que se possa desenhar uma política eficiente é imprescindível partir-se de um diagnóstico da realidade mapeando recursos e potencialidades, infra-estruturas e recursos humanos sem ignorar as precariedades e os desfios a serem superados. Os dois programas brasileiros partiram do pressuposto moçambicano segundo o qual é preciso toda uma aldeia para educar uma criança.
Isso presume atuações que extrapolam os limites físicos das escolas e envolvem metodologias de ensino que utilizam o espaço entre a escola e a casa, como um terceiro ambiente de aprendizagem. As manifestações da cultura e os meios e as linguagens de comunicação podem ser ferramentas pedagógicas decisivas.
No Haiti a música já vem sendo utilizada como instrumento de articulaçao de ações voltadas para o resgate de jovens em situação de risco. O trabalho desenvolvido pela ONG Viva Rio, em Porto Príncipe, com os grupos de A-ha é um bom exemplo de tecnologia social educativa através da cultura.
O Vodu, a religião com o maior número de adeptos, é também um fenômeno de comunicação e integração de sujeitos numa sociedade com poucas mídias de massa. Sem TV própria, o Haiti pode contar com as rádios ( nenhuma em rede nacional) como parceiras na empreitada de mobilizar, educar e reconstruir.
A escolha das estratégias para juntar esses elementos na elaboração de um modelo de educação pós sismo é que definirá o sucesso ou fracasso do modelo a ser implementado. Talvez o amálgama seja a solidariedade, esse sim o elemento mais poderoso, na arquitetura da reconstrução do Haiti.
Para conhecer as experiências brasileiras acesse:
http://www.cpcd.org.br/principal/projetos/cc.html#
http://www.bairroescola.novaiguacu.rj.gov.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?tpl=home
http://www.cidadeescolaaprendiz.org.br/institucional/portugues/
* Escritora, jornalista e preside a ONG planetapontocom, especializada em Midiaeducação. (www.planetapontocom.org.br)








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