É kanaval!

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No Haiti, como aqui, a galera gosta de carnaval. Ou melhor, do kanaval. Imagine então no que dá juntar brasileiros e haitianos, alguns instrumentos e muito axé? Dá nisso: Bag Nòs, ou “troca de anéis” em creole. A música é uma parceria entre os haitianos Izi 1, Bob Selasie e Maestro Gaston e os brasileiros André D’Avila, no ragga, e Saudade, na capoeira.

André, Bob, Izi1 e Mr. Foot

Bag Nòs é um símbolo de união entre os jovens, entre homem e mulher, e nessa música, do matrimônio entre Brasil e Haiti. Integração é a chave”, explica André D’Avila, carioca que há um ano e meio trabalha com projetos sociais de produção artística e cultural desenvolvidos pelo Viva Rio no Haiti.

D’Avila conta que no trabalho com artistas locais conheceu Izi 1, um dos pioneiros do hip hop no Haiti, e que há quatro anos tinha deixado Porto Príncipe para morar nas montanhas. O artista foi convencido a integrar o projeto e agora retorna às paradas do carnaval com um novo estilo que mistura capoeira e samba com o hip hop e o dance hall creole.

“É preciso conscientizar a sociedade haitiana para a importância da união do Haiti com o mundo para a reconstrução do nosso querido país”, diz Izi 1.

Viva Rio em outros carnavaisDe acordo com o músico, a cada ano o carnaval do Haiti perde valor cultural e artístico, ao mesmo tempo em que cresce a violência e a guerra de decibéis, o que não o torna atraente para turistas internacionais. Sua vontade é mobilizar os jovens do Haiti para restituir o carnaval como era há 30 anos: cheio de cores, calor fraternal e boas músicas.

André D’Avila conta que os haitianos acham que o Brasil é o Haiti que deu certo. A idéia é que através do processo de regionalização cultural, o Haiti possa se inserir na globalização. Segundo D’Avila, o povo haitiano tem uma solidariedade que os outros países deveriam aprender.

“O Haiti ficou muito tempo isolado do mundo e precisa se inserir. O Brasil é mais avançado nisso, no ponto de vista de cultura. Cada momento de sensibilização e integração de culturas já é uma vitória”, afirma.

Semelhanças

A música já levou o brasileiro a dois programas de TV locais, que veicularam o clipe. “No carnaval daqui, quem não tem clipe não é ninguém. O carnaval é uma grande forma de comunicação de massa. Há bandas com trios elétricos enormes, patrocinadas. Mas nós fizemos tudo sem recursos, só com vontade de fazer. Foi muito espontâneo, gravamos no estúdio de um amigo”, explica. No coro da capoeira, os artistas contaram com a participação de crianças haitianas de um projeto de reinserção de crianças soldado do tráfico no contexto familiar.

Haiti como aqui. Foto: André D'AvilaPara Bob Selasie existem muitas semelhanças entre Brasil e Haiti. “Os dois países foram colonizados, o Brasil pelos portugueses e o Haiti pelos franceses. Assim como no Brasil, já havia indígenas quando os europeus chegaram. O Haiti também é formado em grande parte por essa mistura de africanos escravos e indígenas”, compara.

Outra semelhança é a afabilidade dos povos. “Eu vejo que os brasileiros são um povo amigável em geral. Eles gostam de fazer amigos haitianos. E são duas culturas de música e festas populares. Música é energia. O haitiano gosta muito dessa energia”, diz. Ele acrescenta que o ritmo da capoeira se assemelha muito ao ritmo vudu.

Soldados da ONU - Foto: André D'Avila

Sobre a presença brasileira no país, Bob Selasie afirma gostar da atuação dos representantes da sociedade civil que trabalham no processo de desenvolvimento. Já os militares da Minustah, a Força de Paz da ONU, são vistos como colonizadores.

“Os soldados que aqui estão infelizmente fazem parte de um processo de colonização, uma máquina muito maior que nós todos. Eu sei que a população daqui em geral gosta do soldado brasileiro e entende que a missão da ONU é importante. Mas acho que ninguém, de nenhum país, gostaria de ter outros povos no comando”, argumenta. Para Selasie, se houvesse mais empresas trabalhando com desenvolvimento, as coisas seriam melhores no Haiti.

Criatividade em prol do social

Antes de ir para o Haiti, inicialmente como voluntário, André D’Avila trabalhava como diretor de arte de publicidade. “Era o caminho da mentira. Eu queria seguir um caminho de criação que envolvesse o universo social. É o que eu faço aqui”, conta.

A missão de D’Avila é identificar e reunir artistas plásticos e músicos de Bel Air e apoiá-los na busca por um lugar no mercado de trabalho mundial. Além de ajudá-los a montar seus portifolios, o projeto oferecerá treinamentos em programas gráficos de computador. Numa segunda fase, será organizado um concurso, cujo tema os próprios artistas decidirão. O prêmio será em materiais de trabalho.

Outra atividade de D'Avila no Haiti é registrar os projetos sociais e a vida no Haiti em vídeo e fotos, como as duas últimas que ilustram essa reportagem.

Saiba mais:

Haiti: um país em reconstrução

Haiti na cadência do Samba

Menos armas, mais paz no Haiti

Tambores da paz no Haiti

Bag Nòs - Ouça a música em arquivo MP3.

Gingando pela Paz no Haiti - Capoeira com Saudade (vídeo no YouTube).

Haiti Icí - Blog no Comunidade Segura (em francês)

Comentários

Carnaval

Muito bacana essa iniciativa, principalmente hoje em dia, quando o normal é a pessoa pensar só em si, o mundo precisa de integracão para que haja compreensão. Valeu!

Bag Nòs

Adorei a música. Gostaria de ver o video deste grupo. Algumas pessoas estavam na minha casa e gostariam assistir ao video do grupo.

A Capoeira

Olá, adorei a matéria e é muito bom ver como a nossa cultura está fazendo diferença no mundo. Gostaria de saber mais sobre a capoeira e o Saudade. Faço capoeira aqui em Porto Alegre e gostaria de saber mais sobre o projeto. Abraço

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