A realidade de uma menina
Artigo exclusivo para a publicação bimestral “Exit”, ano 1, número 1. Clique aqui para ser um assinante.
Sou a irmã caçula de sete irmãos. Aos 13 anos ingressei no mundo das drogas alucinógenas, das bebidas e nesse mundo de curiosidades, adrenalinas, dor e de morte.
Saí de casa quando minha família descobriu que estava viciada em drogas e álcool. Por épocas, morei em lugares com pessoas estranhas, principalmente quando mataram o meu irmão, já que eu era amiga de quem o fez. Nesse mundo conheci algumas pessoas que me induziram à prostituição, a roubar, a fugir, a pedir, a ser mula , informante, a viver de carregar as armas quando os homens fugiam ou estavam em perigo e tinham que passar de um lado para o outro. Tive que viajar e fazer loucuras; numa dessas viagens fui pega por roubo e mandada para um centro de reclusão juvenil, e também tive que pedir dinheiro na rua para poder voltar para Medelin. Quando voltei, ainda tinha que me virar, caminhei pelas ruas de Medelin, conheci muitos parches e muitos “senhores”; na prostituição conheci Doutores, políticos reconhecidos e viajei a alguns povoados com eles, já que as ninfetas os encantavam, mas não falavam de política, só queriam dançar a rumba e fazer loucuras. Experimentei todas as drogas possíveis e minha vida foi sendo desperdiçada em meio a tragédia, a violência e a ausência de esperança para minha vida.
Tive muitos problemas por causa da ausência da minha mãe. Com meu pai nem se fala! Até chegar ao ponto de querer matá-lo, assim como aos meus irmãos; estes se intrometiam demais na minha vida e tinham ciúmes de mim como se fossem meus cônjugues, bem, em alguns momentos me olhavam como mulher e seus olhares mórbidos podíam ser sentidos, senti um desgosto profundo. Daí vem a minha rebeldía, atribuo a eles e às violacões que tive aos dez e aos 14 anos: um conhecido da minha mãe e outro conhecido do meu pai. A partir destes momentos joguei com os homens, com seu dinhero e com seus desejos. Foi a forma que arrumei de me vingar de um jeito ou de outro. Fiquei sete anos nesse mundo de tragédia. Fui entrando no jogo do poder, fiquei amiga dos durões ou dos que alguma forma exerciam poder ou tinham dinheiro. Era uma das mimadas, por ser linda, inteligente, divertida e boa amante (bom, ainda sou ... visto de um outro ponto de vista), minha forma de ser deixava alguns deslumbrados, mas era suficiente para conseguir o que eu queria, também mantendo um limite; por algum motivo ainda estou viva.
O retorno...
Depois de ter caminhado por caminhos turvos, de ter vivido e sofrido as misérias da vida, de ter sentido na pele todos os aspectos da violência e do conflito, de ter perambulado pelas ruas em noites erradas e turvas, de haver enfrentado mais de uma vez o perigo, a morte, hoje respiro outros ares e pela minha mente transitam plácidos sonhos de vida, hoje estou convencida de que outro mundo é possível, mas quando se conhece de perto o outro lado, o da desesperança e da guerra urbana. Felizmente não terminei como muitos jovens deste país: com uma bala atravessando o coração. Em um dezembro uma luz me iluminou tanto que me queimou, esse foi o primeiro sinal em meio às luzes de Natal. Em pleno período de recuperação sofri um infarto por overdose de coca (cocaína) e maconha, caramba, esse foi o anúncio definitivo.
A partir desse dia comecei um processo e reiniciei o caminho, larguei as drogas e tudo aquilo que colocava minha vida em risco, deixei de queimar tanta adrenalina, voltei pra minha casa e comecei a conquistar de novo a minha família, enterrei muitos dos meus amigos e irmãos, mas me dei conta de que também posso ser a Esperança para muitos que ainda estão em seus mundos, em risco.
A história...
Na época de maior conflito em Medelin, muitos jovens como eu se encontravam entre as armas, a violência e o parche e uma parte da sociedade também cansada de tanta dor e mortes decide criar programas que possibilitaram outras alternativas para quem desejasse olhar para outros horizontes. Eu, então, fui convocada para participar de um encontro para a paz. O que seria isso? Não fazia idéia, mas decidi atender ao convite, já que estava passando pela recuperação da minha queimadura e meu estado de saúde não era dos melhores. Então, esse dia, foi muito bom me encontrar com muitos jovens que queriam dar a volta por cima em suas vidas. Foi um processo estar ali, passava horas em silêncio nesse espaço para não ir a um passado que já estava cansada. Comecei a participar de algumas das oficinas para as quais me convidaram e minha familia começou a acreditar em mim.
Foi criado um programa de convivência dedicado a mediar e solucionar conflitos, com jovens que estavam à margem da lei, em confronto armado e territorial, e com a participação da Igreja. Já convencida que poderia estar aproveitando outras oportunidades de vida, me deram a responsabilidade de convocar mais jovens na cidade e realizar um processo de mediação para a não confrontação, que era um produto mais fácil, já que a maioria de meus amigos ainda estavam neste mundo de sombras. Foi uma experiência enriquecedora porque me permitiu conhecer muitos jovens, pessoas com desejos de nos acompanhar em nosso processo de vida e graças a este processo pude terminar meus estudos secundários e iniciar um técnico especializante no que estava explorando: a transformação de conflitos e processo de convivência na cidade.
Então chega à minha vida o que realmente reafirmou meu estilo de vida, minha real opção pelo que queria e com o que me identificava plenamente: uns jovens da comuna seis também protagonistas de histórias de morte, dor e poder, mas convencidos de que era possível cruzar a linha e reestruturar suas vidas a partir do afeto. Sim, a metodologia do Efetivo é o Afetivo e de Convencer e não Vencer, dirigida aos jovens que estimulavam a cultura do dinheiro fácil, da moto, do carro, do poder, dos senhores, das meninas lindas, do sexo sem limites com meninas que também buscam reconhecimento e poder.
Se iniciam os trabalhos contra essa nova cultura e se busca desestimular a onipotência do vitimado e se ganha todo o reconhecimento porque não se conta a história de vida e o afeto que se pde dar àquele que não o teve, trabalhar com os que ninguém trabalhava e acreditar nos que ninguém acreditava. Essas eram suas metodologias e a dos que conseguiram com que me apaixonasse e convencesse a outros com a mesma mensagem, a qual conseguiu chegar aos novos senhores, às novas gerações, aos novos poderes políticos e militares. Se hoje nos respeitam é porque creem em nosso sonho e têm fé nele, ainda que com todas as dificuldades e com todas as tentações, temos conseguido nos manter firmes no tempo e vivendo o dia-a-dia com os meninos sem importar de onde vêm. Nossa única garantia é o amor e o respeito pela vida acima de tudo, e de devolver aquilo que a vida nos deu por meio de afeto.
Mingas realidades...
Não me arrependo de ter passado pelo que passei, pelo contrário, agradeço a Deus por me permitir viver tudo aquilo, já que me possibilitou ser a mulher que sou hoje. Me mantenho em risco constante por fazer as coisas bem e por caminhar em minha cidade.
Sonho em ver outras possibilidades para jovens que hoje não as têm ou não se dão a chance de ter. O caminho em direção à transformação não é fácil, mas é possível. Não é fácil, ainda mais entre a adrenalina, os poderes, os amigos, as aventuras, os riscos, no entanto, é possível que se tenha a vontade e o acompanhamento para fazê-lo. É possível mesmo quando não se está preparado para receber o afeto, amor do coração dos muitos seres que a vida põe no caminho para que o processo seja mais fácil. É quando o indivíduo se dá conta de que uma vez começado o processo com toda a força, não há volta. Mesmo que hajam recaídas, também estará preparado para começar de novo, com todo o significado que isto tenha.







